quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Brilho eterno?

No rol das frustrações dos quase-30, sem dúvida a "vida sentimental" figura luminosa no imaginário de mulheres (e homens) recebendo a visita de Saturno. Da frustração de não ter ninguém em vista e se sentir só, às frustrações de um relacionamento a dois, passando pela dor de já ter passado por um casamento frustrado... frustrações abundam quando se QUER amar. Durante muito tempo, acreditei que "bem melhor seria poder viver em paz, sem ter que sofrer, sem ter que chorar, sem ter que querer, sem ter que se dar". Até me apaixonar e resolver viver esse sentimento tão inebriante, que colore tudo mais de novos e inesperados sentidos.
Viver a dois exige acordos que se fazem na mesma língua, há de se entender o que se expressa, comunicação de vontades, chateações, limites. O problema é que às vezes nos sentimos como "Baudolino", falando várias línguas ao mesmo tempo e não sendo compreendidos em nenhuma delas. Diálogos se tornam constantes DRs, o ronco que a princípio era bonitinho não te deixa dormir, expectativas a respeito do comportamento do outro oprimem o cotidiano natural... em alguns momentos, você se sente mais compreendido por desconhecidos do que pelo interlocutor prioritário, com quem tanta intimidade foi construída.
Às vezes a fronteira que protege a intimidade de um casal e o que é só dos dois se torna fina e frágil membrana e até sufoca, te faz sentir saudade de si mesmo, torna escuro o ambiente em que conseguimos "ver" o outro.
Não tem idade pra viver isso, amor ou frustração. Mas, sim, aos quase-30 nossas expectativas de realizar algo nesse espaço parecem intensificadas com lente de aumento. E nós parecemos tão incapazes de fugir e também de enfrentar tão grande tarefa.

Um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" fala tão lindamente da vontade de estar junto, da dificuldade de sustentar a convivência, da insistência em tentar apesar de tudo, mesmo quando se tenta esquecer:


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mundo grande transpõe conjunção astral

O que meu ascendente em Aquário faz por meu sol em Escorpião é me dar uma aparência de superfície fria e tranqüila encobrindo uma alma de profundos redemoinhos e mar quente e revolto.
Desconheço outra pessoa que cruzou o espaço entre duas temperaturas tão diversas em tão curto espaço de tempo como marido na noite em que nos conhecemos. Com habilidade rompeu fronteiras bem construídas e cultivadas e causou fascínio em uma alma solitária e de discurso cínico. Acolhimento inesperado e desejo intenso fez de um desconhecido o interlocutor prioritário e o corpo imprescindível. Absolutamente.
Tenho me perguntado porque apesar de uma conjunção astrológica tão favorável ao mistério, tenho tido tanto prazer em me despir publicamente. O amor e análise começaram a abrir fendas em minhas fronteiras antes bem guardadas. E algumas dores começaram a mostrar suas feias faces.
Tal como Drummond, preciso de todos para suportá-las.

"Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos."



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Tempo II: Mas eu sou tão moça pra tanta tristeza...

Na "fuga" dos fantasmas do passado que me batem à porta nos quase-30, dei de cara com alguns que me deixaram numa tristeza profunda. Fui na festa de 30 anos ironicamente de um amigo da época de faculdade e encontrei amigos de mais de 10 anos atrás. Me senti, como na canção de Violeta Parra, que tinha voltado aos 17 depois de viver um século. Tão distante daquelas pessoas e daquele modo de vida. Tão enojada com os comentários reacionários que um deles insistia em fazer.
Foram 3 horas de tortura que só muita cerveja me fez tolerar anestesiada. E pior: me levaram a reencontrar o fantasma da ruptura que fiz em minha vida. Ao chegar em casa, redescubro que "solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes", me agarro ao corpo do meu companheiro buscando desesperadamente refugio dos fantasmas. Ele busca me acolher me mostrando que ao invés de culpa, deveria ter orgulho de ter ido contra-corrente e rompido com o que era esperado de mim.
Talvez o que mais tenha doído foi me perceber mais do que nunca como outsider em um mundo que tem aquilo como regra e o que eu acredito como filosofia de vida como absolutamente marginal. Apesar de ter rompido tão cedo com aquilo, por muito tempo ainda busquei tolamente conviver com aqueles fantasmas por obrigação social, alguma compaixão à alienação de suas pseudo-felicidades, como se pudesse resgatá-los. E como doía sentir que não há nada a fazer agora, talvez essa insistência demasiado ingênua só machucou ainda mais minha crença no ser humano. Talvez seja o momento de deixar de reconhecer esses fantasmas como meus, virar as costas e numa ruptura freudiana "matá-los" e numa ruptura estrutural reconhecer que estamos de lados opostos na trincheira mesmo. Passar de frustração e raiva a propósito pode fazer sentido.
No caminho de vencer os fantasmas do passado, às vezes a reconciliação com eu-aos-17 pode se dar pelo reconhecimento de que o espaço dessa batalha não é mais exclusivamente psíquico-pessoal, mas ideológico.

Em momentos intermináveis de tristeza pelo reconhecimento dessa ruptura e tentativa de reescrever minha memória sem odiá-la ou me afundar na frustração, busquei numa música que tanto fez parte da minha história, um pouco de significado.
Como no poema "Canteiros" de Cecília Meireles musicado por Fagner:
Eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

E dessa por livre associação, cheguei à belíssima canção de Violeta Parra "Volver a los 17", que tem assustadoramente e libertadoramente a ver com este momento:
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como decifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Para deleite:





terça-feira, 30 de novembro de 2010

La columna rota


Uma semana depois da fatídica previsão de uma astróloga de que tinha que ter cuidado com meu "eixo de sustentação corporal", quase como uma profecia auto-realizante fico com um torcicolo absurdo.
Um ortopedista incompetente (aparente pleonasmo...) me recomenda o uso de um colar ortopédico, "inclusive ao dormir".
Depois de passear por aí me sentindo mais próxima do que nunca da Frida Kahlo, cheia de dores e meio patética, ouço de uma amiga com quem fui almoçar no domingo que torcicolos severos "são aparentemente um mal de mulheres nos quase-30".
Ah, Saturno, Saturno, soturno, me persegues até na anatomia? Já não bastam os prenúncios de rugas, o medo da flacidez afastado com o vício do pilates, os fios de cabelos brancos que me recuso a tingir?
Cheia dos conselhos e da aparente lucidez de todos os seres humanos, vou num osteopata holístico [risos em suspenso pela dor] que me diz: "2011 será um ano intenso pra você e precisamos limpar seu fígado". Fico com aquela cara interrogativa (ou seria a dor?) e ele me diz "tenho intuição". Ok, ok, aparentemente dos planetas do sistema solar a toda sorte de indivíduos, todos parecem saber algo mais sobre meu futuro que eu mesma poderia antecipar. Resolvo respirar fundo e relaxar. Ele estala minha coluna e pescoço, me enche de agulhas de acunpuntura e choques. Há de se desestruturar a anatomia pra se reconstruir então? Me pergunto... decidida a recusar conselhos que não venham da minha alma ou corpo. Os alheios só me causavam confusão mental e anatômica.
Chegando em casa, reencontro formas mais profundas de ouvir meu corpo e alma. Em todas as posições. Amém.

Fodam-se os conselhos e juízos alheios, hoje vou de Shakira que antes de ser platinada era uma letrista de talento:
"se me acaba el argumento
y la metodología
cada vez que se aparece frente a mí
tu anatomía"






quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O TEMPO I: "Batidas na porta da frente: é o tempo...

...eu bebo um pouquinho pra ter o argumento."

Quando tinha 19 anos, escrevi uma carta pra mim mesma pra ler cinco anos depois. Claro que antes dos 24 acabei relendo. E reli muitas vezes desde então.
Na carta "relembro" a mim mesma meus sonhos de juventude pro caso de ter esquecido. Falava de tudo que ainda queria fazer, lugares a visitar, línguas que queria aprender, o que achava importante pra me realizar... dez anos depois me impressiona a lucidez de algumas coisas. E a ingenuidade de outras.
De alguma forma, havia um medo aparente de que com o passar do tempo eu endurecesse, me burocratizasse, deixasse de lado o que me dá sentido em prol de confortos banais, me tornasse talvez o protótipo de "adulta" que minha mãe desejava: social e financeiramente responsável, que tem filhos, paga impostos e trabalha 40 horas ou mais por semana. Verdade seja dita, pago meus impostos religiosamente e não devo um centavo a banco algum. Mas aos 21 anos tinha juntado uma grana trabalhando feito uma louca nos EUA e torrei tudo durante 1 ano na Europa aos 22... Até o momento, não consegui uma poupança equivalente, mas não há um sopro sequer de arrependimento nessa lembrança. Confesso que vivi, já diria Neruda.
O que aquela carta já antevia lucidamente é que o problema não está no que um dia nos orgulharemos, mas o que nos traz arrependimento, culpa, frustração... e aos quase-30 anos, todos temos os nosso fantasmas pra encarar. E às vezes são bem feios. E insistentes.
Acho que eu-aos-19 anos queria assegurar que eu-aos-24 anos, tivesse compromisso com meus sonhos de juventude, ficasse alerta pra necessidade de driblar o TEMPO e suas constantes armadilhas, como a rotina, o esquecimento, a estabilidade... como extremista que sou quando abraço uma filosofia de vida, dei adeus a amores como quem se desfaz de uma roupa incômoda, fiz o possível pra negar minha educação jesuíta de boa moça baiana, como uma mariposa aprendi a arte da mimetização, aprendendo e abandonando sotaques de acordo com a necessidade...
Nesse processo, passei por cima de muitos fantasmas que agora batem à porta. Aos quase-30 anos, estou aprendendo que não posso ser tudo que eu-aos-19-anos queria. Ainda bem. Em dez anos, aprendi um pouquinho mais sobre o mundo e quero algumas coisas diferentes pra mim mesma. Mas ainda tenho que fazer as pazes com eu-aos-19-anos, eu-aos-20-anos, eu-aos...
E pra isso, ando recuperando projetos há muito guardados...

Pra lidar com fantasmas, nada melhor que a arte (Resposta ao tempo):
"Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver"

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

As alquimistas estão chegando...

...estão chegando as alquimistas.
O primeiro livro que li em espanhol foi "Como água para chocolate" e além do prazer infinito que ouvir uma história ser contada em outra língua por primeira vez dá (experiência aperfeiçoada pelo advento García Marquez em minha vida), aquela história me tocou profundamente.
No entanto, nunca como agora nos quase-30, consigo me sentir tão ligada à história de quem expressa seus sentimentos e causa sentimentos através do preparo dos alimentos.
Do ponto de vista de uma feminista que estuda o trabalho das mulheres e suas implicações na opressão de gênero, o preparo dos alimentos é uma das atividades frequentemente citada na lista dos trabalhos majoritariamente exercido pelas mulheres e de forma negligenciada pela economia por acontecer fora do "mercado". Mas a vida econômica e social está muito além do que o mercado abarca. A preparação dos alimentos produz valor de uso que as famílias e comunidades usufruem e precisam. É mais uma dimensão do "cuidado", esfera da vida que é central pra nossa sobrevivência e bem-estar, e onde as mulheres são protagonistas (e talvez por isso mesmo tão depreciada, porque nenhum terreno tradicionalmente feminino pode ser valorizado sem empoderar-nos... e empoderamento das mulheres é aterrorizante pra quem oprime).
Quando digo que sou feminista, muitos ficam surpresos e me perguntam o que isso significa pra mim. Como feminista luto pra que os papéis sociais que são tradicionalmente femininos, especialmente os do cuidado, alcancem o status social que lhes cabe pela centralidade que têm na nossa vida. Luto também para que as mulheres possam transitar com facilidade nos espaços e papéis tradicionalmente masculinos (como a política), porque são dimensões da vida social que cabem às mulheres tanto quanto aos homens. Luto também para que os homens desempenhem tanto quanto as mulheres as atividades tradicionalmente femininas, como as do cuidado, para que as mulheres possam de fato ter tempo para estar nos espaços masculinos sem que isso implique uma jornada múltipla de trabalho.
Mas tem um aspecto dessa luta com a qual sempre tive (e acredito que a maioria das feministas também) dificuldade: valorizar os papéis tradicionalmente femininos significa valorizar quem os desempenha prioritariamente, ou seja, entender que algumas pessoas (sem distinção de gênero, ainda que geralmente são as mulheres) podem querer ser mães/pais em tempo integral, cuidar da casa, cozinhar pra família... entender que essa é uma escolha legítima e linda.
Sempre tive dificuldade de entender como algumas de minhas amigas brilhantes e muito cultas decidiram não ter uma carreira e ser mãe a toda hora, antes dos 30 inclusive. Um misto de incompreensão e pena, como se elas estivessem oprimidas pelo machismo dos maridos. Admito minha prepotência, mas era difícil afastar esse sentimento.
Recentemente, me encontrei envolvida profundamente no cuidado de quem amo e descobri o prazer imenso dessa experiência, apesar de é claro ser confuso. Descobri que absolutamente amo cozinhar e me sinto parte de uma comunidade restrita de pessoas que cozinham por vontade e prazer. Adoro ir dormir pensando no que tenho na geladeira e como na manhã seguinte vou me tornar alquimista no preparo de algo saboroso. Adoro ir na feira com sacola grande, escolher algo novo como couve de bruxelas e descobrir como vou cozinhar isso... na alquimia da cozinha, me sinto parte de uma sociedade secreta, dos que amam e exercem essa arte.
Temperar, inovar, alimentar quem amamos, ouvir huuuuummmm... que delícia! Me sinto meio bruxinha, fazendo feitiço na minha panela, alquimista de sabores.


Um dos efeitos culinários que mais gosto da história de "Como água para chocolate" em sua versão cinematográfica:


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Eu, caçadora de mim...


Tenho mergulhado no infinito de mim mesma ainda mais intensamente, seja aumentando a frequência na análise ou cultuando mais o tempo sozinha pensando em questões intermináveis. Dói se encarar. Dói se desnudar até para si mesma. E perceber como sou tão refém de neuroses que Freud diria que começaram na infância e eu acho impossível de obter a genealogia detalhada.
Surreal também como ao futucar os vespeiros de nossa alma, encontramos referências às coisas mais absurdas, de mitos gregos de castidade a rituais de bruxaria...
De alguma forma me parece que na minha vida, a experiência de ser mulher encanta e perturba. Da admiração profunda pela força feminina, ao desconforto com o desejo tão fácil que provocamos com um decote mais revelador. Ser mulher é fragilidade e fortaleza e por isso tão contraditório e belo. Eu me abismo, me arrebato e me arrisco nessa aventura, apesar das dores e da vontade de me esconder numa conchinha que às vezes me toma com força...
Ao menos, reconheço a força das mulheres que me antecederam e abriram caminhos que hoje trilho com mais facilidade e trilho outros que outras irão trilhar com mais facilidade, num círculo mágico infinito de subversão, rebeldia, grito de liberdade, loucura e - diriam alguns - bruxaria...

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Projeto sete desejos, na fumaça do cigarro...


Quanto de nós podemos doar aos outros sem que deixemos de ser nós mesmos? Amar é se dar, se envolver, ao ponto de se confundir, às vezes não conseguir distinguir onde se começa um e termina o outro...
Não sou adepta da filosofia-mundo liberal da afirmação do indivíduo e suas vontades desconectadas de tudo e de todos. A interdependência é real e palpável. E se alguns esquecem disso no dia-a-dia, sempre vem uma tristeza que implora por acolhimento, uma doença que precisa de cuidado, uma dúvida que pede bate-papo... pra nos lembrar que precisamos dos outros, SEMPRE! Então, sem ilusões de que a autonomia total é possível, também há de se reconhecer o silêncio de si mesmo, um espaço que ninguém além de nós tangencia e que é tão imcompreensível até pra nós mesmos...
Na prática do amor à humanidade e do amar verbo transitivo (amar a alguém em especial) tão frequentemente nego ou ignoro o silêncio de mim mesma. Mas continua ali e às vezes emerge, sufocado de passar tanto tempo enterrado e explodindo de angustia...
Cotidianamente recalcamos desejos em nome do compromisso aos outros, às nossas verdades, à coerência com a nossa filosofia de vida, ou a tudo isso. Do chocolate a mais, ao cigarro proibido e da trepada que vai nos atrasar pro almoço de família... quando é que os recalques deixam de ser compromisso recompensador e passam a ser auto-abnegação compulsiva, do tipo que nos leva fatalmente a cobrar a conta daqueles em nome de quem supostamente freiamos tais impulsos? Se em algum lugar este limite está claramente demarcado, alguém hasteie uma bandeira no ponto porque eu creio que me confundi. A resposta do bom samaritano ou do iogue é que há de se ter equilíbrio e etc e tal. Mas se equilíbrio fosse o conceito tão auto-explicativo, não estávamos sempre nos descabelando com os excessos de se gastar, de se dar, de se reservar, de não arriscar...

sábado, 31 de julho de 2010

a solidão infinita das multidões

Estou órfã, sem papel de escrita. Meu moleskine cheio até a última página e não tenho um novo à espera há um par de meses. Os momentos de solidão, cada vez mais caros num apartamento tão pequeno e compartilhado, não cabem em meu silêncio. Minha saída, me desnudar publicamente, talvez um arroubo tolo, mas agora absolutamente necessário.
Preciso me encontrar mais frequentemente, a sós. Sinto falta de me conhecer mais depois que me vi através dos olhos de tantos. Agora necessito absolutamente estar só comigo. Nem sempre a meditação, o silêncio, a análise, a contemplação ou o cigarro roubado bastam...

domingo, 30 de maio de 2010

Mulher é bicho esquisito...

...todo mês sangra.
À medida que me aproximo dos 30, tenho notado mais as especificidades da TPM. Não sei se porque me conheço mais e percebo melhor o que me acontece há uns 16 anos todos os meses. Ou se a coisa vem piorando com a idade. Dividir o teto com alguém que tem que aturar as agruras disso também me fez mais consciente das minhas chatices.
Fato é que me convenço que se tivesse anotado cuidadosamente, conseguiria escrever minha biografia baseada no meu ciclo menstrual. As principais brigas com minha mãe e irmã na adolescência, as crises de namoros, os ganhos de peso, a vontade de largar tudo e pegar a estrada, os momentos altamente sexuais e os assexuados e até, pasmem(!), o comportamento intestinal parece ter a ver com a danada.
Essa coisa de reeducação alimentar e atividades físicas também ajudam. Eu, sempre tão preocupada em cuidar do intelecto e do espírito... observar as mudanças do meu corpo também têm me ajudado a me entender mais. Se tem uma coisa que o feminismo trouxe de ruim pras mulheres "descoladas" é a quase-negação das especificidades da matéria e constrangimentos de ordem natural. O corpo existe enquanto entidade, embora o que façamos com ele seja tão intrinsecamente simbólico.
Aí, aos quase-30, tenho me preocupado não somente com o etéreo, mas também mais recentemente com o corpóreo. Há uma geração atrás, uma mulher da minha idade já provavelmente seria mãe. Negação do corpo-enquanto-entidade é piada quando se está com um ser na barriga ou o alimentando no próprio peito. Sempre acho essa coisa da mulher e sua cria muito louca e intensa. E nós, mulheres "descoladas", quase que nos descolamos da própria experiência humana, tentando domar os ciclos da natureza, escolher o momento apropriado (?) pra ter filhos, achar que qualquer dia do mês o humor tem o sabor de nossa vontade...
Não faço um manifesto em defesa da sobredeterminação da matéria sobre a vontade. Mas a favor da humildade de reconhecer que não somos mulher-maravilha. E mais: reconhecer o próprio mistério inominável de existir. Tô engatinhando nesse caminho de humildade. Mas a vida tá me sacudindo pra que eu não esqueça meus limites, ao contrário dessa aventura pós-moderna do tudo-é-possível. Reconheço as implicações negativas do feminismo, mas desserviço mesmo fez Xuxa e sua "Lua de Cristal" pras quase ou recém-balzaquianas da nossa geração, frustradas de culpa por não conseguir ser tudo que quer.

PS: Aceitar que há limites não implica em ser conformista. Exercito minha utopia, loucura e fé no amor sempre! Afinal, "Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer... meu coração vagabundo, quer guardar o mundo em mim."

Pra encerrar, duas sábias mulheres que inspiram...




domingo, 23 de maio de 2010

Onde me encontrarei??

Faz tempo que não escrevo. Tempo. Inspiração. Culpa por perder tempo com isso quando deveria estar tesando. Hoje senti uma vontade incontrolável de falar. Não sei quem sou. Todas os aprendizados parecem ser di-mi-nu-tos. Sinto que ainda não me encontrei e tenho dúvidas se me encontrarei.

Certas decisões que venho adiando na minha vida não podem mais ser adiadas. Dói decidir. Dói pensar em ficar. Dói pensar em ir.

Dói não amar. Tô cansada de ser impar. To cansada de não saber sentir. To cansada de olhar o horizonte e não ter qualquer perspectiva de amor. To cansada de tentar ser forte. To cansada de repetir que ficar só é bom pq aprendemos a nos conhecer e aí de repente olho para mim e vejo que não me conheço!!!

Tenho visto que quando bebo muitos sentimentos tem aflorado e tenho tido dificuldades com a hora de parar de beber. Não bebo sempre, mas quando bebo sinto quer perdi a noção do tempo de parar e acabo muito mal no dia seguinte. Não, não subi na mesa, nem fiz nenhuma baixaria. Mas, sinto q falo mais do q devo, sinto q minhas frustrações vem mais a tona no dia seguinte. Resultado, decidi parar de beber.

Me sinto injusta por reclamar, minha vida parece que aos poucos está se resolvendo. O que não está resolvido depende de mim. Não estou puta com a vida. Tô puta comigo. Por não saber quem sou, nem o que quero. Por não saber amar, não saber me dar.

Essa semana uma grande amiga me visitou. Em nossa inúmeras conversas, teve uma q comecei dizendo o ideal para mim seria... Como em uma avalanche eu fui mudando e acrescentando ao ideal pq na verdade o que digo quer seria “o ideal” é uma visão conformista e sensata que criei para estancar o querer.

...!!!
Quem melhor do q Chico para expressar o q sinto e ainda me dar esperança?:


Nunca fui a maior fã de Woody Allen, mas os últimos filmes dele fazem todo o sentido para mim.
Wathever works é genial, queria vê-lo mil vezes. Todos os dialogos são maravilhosos e me falam sobre esse meu momento, só uma palinha:



quinta-feira, 13 de maio de 2010

As (quase) balzaquianas e a gravidade

Dizem que a insatisfação é força propulsora de mudanças. Motiva para a ação. Pode ser. Mas na sociedade contemporânea, os padrões para se alcançar a felicidade em todos os aspectos são tão altos que você nunca sabe se está sendo paranóica quando se preocupa ou relapsa quando relaxa.
Nos quase-30, a coisa chega ao limite da loucura. Somos bombardeadas diariamente com estórias em revistas sobre mulheres famosas que chegam aos 30, com o casamento dos sonhos, um filho lindo, um corpo que desafia a gravidade no pós-parto (tudo por obra de ter uma boa genética porque elas costumam preconizar comer de tudo) e uma conta bancária que lhes permitiria parar de trabalhar já (coisa que elas não fazem porque dizem amar o que fazem)... ufa! Você se sente uma reles mortal lendo a lenda de uma divindade ou um mutante.
Muitas de nós mortais suspiram de alívio quando vêem o casamento dos sonhos acabar em escândalo, ou a foto sem photoshop com celulite da famosa em questão na praia, ou quando ela abre a boca e fala uma besteira sem tamanho... isso nos faz sentir menos ET e faz elas parecerem mais NORMAIS!
Uma coisa que aprendi nessa minha vidinha singela de quase 30 anos é que não se pode ter tudo. Busquei trabalhar com aquilo que amo, então demorou muito pra ter retorno financeiro. Até ser reconhecida pelo que faço depois de muito perrengue e finalmente poder bancar alguns pequenos luxos. Escolhi viajar o mundo por muito tempo, então tive relacionamentos sem entrega por muito tempo. Até encontrar um amor daqueles que abala tudo e quebrar a regra de que uma mulher independente não faz concessões por amor: fiz muitas e fiz todas por escolha e sorrindo. Comi tudo que gosto sem culpas, então cheguei aos 28 anos e meio com sete quilos a mais do que considero ser meu peso ideal. Até me olhar no espelho, dizer basta e, como diz um amigo, fazer download de cabeça de magra. Não dá pra tomar coca-cola normal, ser sedentária e achar que um dia por obra divina acordarei com uma barriguinha chapada.
Essa história de ficar em forma sempre foi contra meus princípios de feminista e intelectual. Continuo achando que a obssessão com a magreza não pode obscurecer a centralidade do objetivo de viver com verdade, buscar conhecer e se conhecer, ter a serenidade para enfrentar problemas que virão eventualmente.
Fazer um post pra justificar minha dieta é típico da minha obssessão em fazer o que acredito. E nesse momento, acredito com firmeza que chegar ao meu peso ideal (e com saúde!) pode não trazer felicidade, mas vai me fazer sentir mais segura, sensual e bonita. Precisa mais??

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dilema do Prisioneiro ou Amor Livre?

Todo relacionamento tem pactos. Nos comprometemos a não revelar a ninguém as loucuras mais íntimas do outro, a guardar os segredos confessados, a não julgar ou ridicularizar as obssessões tolas, a não deixar outro alguém ter íntimo acesso a nosso corpo... Possessividade? Talvez. Afinal, já diria Raulzito: "se eu te amo e tu me amas, um amor a dois profana o amor de todos os mortais..." Sintomático que todos esses pactos envolvem o medo do acesso de terceiros aos segredos que, vividos somente a dois, dão uma sensação de pertencimento sem paralelos.
Nessa onda de ser cabeça aberta, fui testando os meus limites. E relacionamento aberto é uma daquelas fronteiras que não me dá curiosidade ou vontade de ultrapassar. Acho até interessante que pra algumas pessoas funcione tão bem (e elas tendem a afirmar que isso aumenta a intimidade). Pode ser caretice, mas a cumplicidade proveniente da exclusividade acordada me é muito cara e inegociável. Mas o que reverte o senso-comum aqui é que se trata de um pacto que inclui terceiros, mas que, como todo pacto, envolve acordos sobre limites. Me parece que o casal em questão tenta assegurar que esse "exercício de liberdade física" não implique na perda da cumplicidade da qual só os dois são partidários. A exclusividade física deixa de existir, mas o elo emocional exclusivo se mantém presente. Ou até que se quebre, o que pode acontecer com ou sem relacionamento aberto.
Acho que aqui reside o problema. Os pactos de relacionamento são delicados porque envolvem a necessidade de confiança no compromisso do outro, seja qual seja o formato. O preconceito com o formato relacionamento aberto vem da idéia de que esse compromisso é mais frouxo. No entanto, a propagada fidelidade física é tão constantemente quebrada por casais diversos...
No dilema do prisioneiro da teoria dos jogos é descrita a situação hipotética de que dois cúmplices de um crime são presos em celas separadas, sem a possibilidade de comunicação. Ambos recebem o benefício da "delação premiada": entregue seu comparsa e reduza sua pena. No entanto, há o entendimento de que se ambos delatam o outro, a pena será grande para ambos. Se um delata e o outro não, o que delatou se safa e o outro tem a pior pena possível. E se ambos negam a participação de ambos, ambos têm a menor pena. Quantos deixariam de delatar sob o risco de que o outro lhe entregue e assim receba pena máxima? É um equilíbrio delicado que exige muita confiança.
A entrega sincera ao amor implica em um nível de confiança no outro que é rara nos dias de hoje. A recompensa é, no entanto, não a pena mínima, mas a sensação plena de acolhimento que só a cumplicidade de um amor sincero pode alcançar. Isso é o que chamo de amor livre. O resto é resto.

Para refletir, duas passagens do filme Frida. Na primeira, Frida descobre que Diego tem um caso com sua irmã. Apesar de saber das aventuras do marido, essa rompe de forma radical suas expectativas de lealdade. Na segunda passagem, Diego descobre que Frida teve um caso com Trotsky a quem tanto admira e sente uma dor que tem paralelos no sofrimento de Frida. Os diálogos são maravilhosos!




sexta-feira, 16 de abril de 2010

Querendo ser Mandela, mas me tornando Richard Dreyfuss.

Não, não pretendo mudar de gênero. Sou bem feliz sendo mulher.

Apenas, tenho estudado bastante a história da África do Sul e quanto mais o faço mais me apaixono pelo Mandela. Já notei que essas minhas paixões, sejam aquelas que acabo achando que irão se tornando reais e fantasio o grande amor *; sejam essas outras mais inefáveis que tenho pelo Mandela ou pela Angelina Jolie, estão extremamente ligadas ao que eu gostaria de ser.

Sempre quis ser Mandela. Ou Angelina.

Jamais quis ser Mr. Holand, o personagem de Richard Dreyfuss em Meu Adorável Professor. Embora tenha me emocionado extremamente na última cena (abaixo), lembro da minha sensação à época que era assim: “lindo, mas ainda assim pouco para mim”.

Soa pretensioso, porém é verdadeiro. Sou pretensiosa mesmo, mas esse post é para dizer que finalmente aos 30 anos começo a pensar que talvez deva ser mais humilde. Quem sabe meu destino não está mais ligado do “modelo Richard”? Quem sabe não é hora de eu assumir isso? Não com pesar, mas com orgulho.

Isso muito me atinge atualmente. Afinal, estou no fim de um ciclo e além de muitas outras dúvidas, uma das mais profundas tem essa raiz: quem sou no mundo profissional para mim define muito quem eu realmente sou. Quero crer, que minhas escolhas profissionais não se definem por dinheiro, mas por paixão às causas. Não sou hipócrita claro que gosto de dinheiro, preciso de dinheiro. Espero no fim deste circulo ter uma situação de menos dividas e mais estabilidade. Só não é esse o motivo que me faz acordar de manhã com entusiasmo. Quero melhorar o mundo, quero lutar pelas causas nas quais acredito e com resultados efetivos (claro!).

Ter consciência de que não sou destinada a ser um Mandela, me ajuda a ver que as posições que ocupo hoje e as que tenho uma possibilidade real de obter não são conformistas. São o meu lugar. É a partir delas que poderei incidir no mundo. Com elas não mudaria o destino de uma nação, não entrarei para a história. Entretanto, poderei ajudar a formar pessoas preocupadas com a realização de direitos humanos e valores afins. Poderei enfrentar questões e tornar certos direitos de certas pessoas mais reais. Até onde eu irei assumir isso com o coração e a alma, ou até ficarei tentando me convencer por toda a vida, só o tempo dirá.

Não posso esquecer que para amar alguém e estabelecer uma parceria com esta pessoa pelo maior tempo possível também não precisa ser o Mandela ou a Angelina, pode ser alguém que faça pequenas grandes diferenças na vida dos outros e uma imensa diferença na minha vida.

* Ainda que viva repetindo não crer mais nesse danado de grande amor, por vezes, acho que quando repito estou tão somente tentando me convencer para conviver com minha atual realidade.

Video: - Mr. Holland's Opus (desculpem, mas uma vez não há com legendas)

sábado, 20 de março de 2010

O vestido verde, o chandon vermelho e uma lição de vida.

Comprei um vestido verde há mais de 5 anos. Nunca usei. Ele deveria ser usado numa noite especial com alguém por quem eu estivesse apaixonada. O comprei pensando vai ser usado naquela noite. Eu vou estar linda, mais magra e ele vai ser o vestido perfeito.

A noite nunca chegou.

O vestido está no cabide...

Hoje, traz mais melancolia do que expectativa.

Minha bebida preferida é Chandon Rouge. Para mim, é a bebida perfeita para brindar grandes e bons momentos. Imagina, só: é vermelho, borbulhante e no gosto há toques de especiarias. Perfeito, né? Qual não foi meu desespero ao descobrir que por “direcionamento do mercado (lei-se: só eu gosto dessa porra) a Chandon deixou de fabricar a versão rouge”.

Procurei por toda parte e dei pulos num supermercado quando achei.

Comprei 6! Um para brindar meu ano novo, outro para brindar meu aniversário na minha cidade natal, outro para brindar o aniversário na cidade que moro e assim por diante. Brindar momentos especiais.

Esperava que um deles talvez fosse o enebriante de uma noite romântica.

Guardo todos com o maior ciúme.

Ontem, chegay bêbada em casa com dois grandes amigos. Meus amigos há mais de 10 anos. Eles queriam beber algo. Só havia leite, água e Chandon! Abrimos o Chandon quente como estava. Hoje, Mafalda passou aqui brindamos novamente e bebemos um pouquinho mais. O restinho da garrafa e bebi sozinha.

Hoje quando acordei refleti sobre isso e pensei: ora, não sou q vivo dizendo que devemos comemorar a vida sempre e não ficar esperando grandes momentos? Que melhor momento do que estar ao lado de pessoas q amo.

Pode parecer conformista, mas não encaro assim. Claro que eu ainda espero ter essa danada dessa noite especial que mereceria o vestido verde o champagne vermelho, mas é provável que nada disso me esteja à mão quando essa noite ocorrer, ou que eu nem vá lembrar deles, serão totalmente supérfluos.

A questão é eles são símbolos de uma espera por algo que não posso controlar, se, quando e em que condições existirá. Como sou alguém que prefiro lidar com o que tenho e com o que depende de mim.

Pretendo tomar muito Chandon rouge nos próximos meses. Em momentos que se mostrem propícios. Sem necessidade de nenhuma grandiosidade. E juro que vou tirar o vestido verde do armário...

Escrevi esse post há mais de um mês e acabei publicando um outro que fez mais sentido à época. Nesse interim, já tomei duas garrafas de Chandon e programo outra para breve. Essa semana, voltei a minha cidade natal para ficar com a família ante a piora de um doente crônica. Tantos sentimentos que precisaria de uns 100 posts para explicar.

Por outro lado, a "moral da história" desse post sobre aproveitar a vida e os momentos faz ainda mais sentido neste momento.


Ah! Como eu amo Adriana Calcanhoto:
Sins
Adriana Calcanhotto
Composição: Adriana Calcanhoto
Eu nunca faço escolhas, eu quero sempre tudo
Eu digo sempre sim
Eu não me confundo
Eu vou logo aceitando, eu peço sempre muito
Eu quero ver o fundo
Eu não vacilo
O tempo todo eu mudo, eu não duvido
Eu nunca pego restos
Eu não decido, eu quero...
Para estar em movimento,
invento alvos
Eu finjo que estou perto
Eu só minto pra mim mesmo
Atrás de freqüências, potências, clarezas
Alcei novas retas, alcei novas rotas
Por onde pulsa a minha pressa
Eu não duvido
E sim eu digo
E sim eu quero
E sins, eu quero..
.


E outra:


sexta-feira, 19 de março de 2010

Contra-corrente

Luiz Gonzaga cantava uma música que marcou minha infância que dizia "Quem sai da terra natal, Em outro canto não pára..."
Menina, esperava o sol se pôr na véspera do São João para vestir minha roupa de caipira, pintar o rosto com minhas primas e esperar meus tios acenderem a fogueira na roça, para depois soltar fogos de São João a noite inteira ao som de Luiz Gonzaga principalmente.
Mal sabia eu o quanto aquela música marcaria minha vida. Saí da terra natal e morei e visitei lugares distantes. Não fui de pau-de-arara e a malota não era um saco, mas como muitos nordestinos antes de mim, migrei. Por razões diferentes: buscando me encontrar e para continuar crescendo profissionalmente.
Até que tive medo de que não fosse parar em canto algum. Depois de quase dez anos de que tinha viajado por primeira vez, não tinha móveis, nem endereço fixo por mais de um ano, nem certezas que ultrapassassem dois anos.
Bem, amar um carioca mudou tudo isso. Marido continua revolucionando minha vida intimamente todos os dias. Com o medo que eu tinha da estabilidade, minha vontade de permanecer tinha que ser com um subversivo do lugar-comum. Tudo em nossa história foge dos clichês.
Quanto a mim, o que mais me intriga é como vim parar onde estou. Filha de funcionários públicos do interior, nascida e criada na capital baiana, onde Direito ou Medicina são as escolhas comuns das boas meninas, sou o anti-produto do meu meio: fui viajar, aprender línguas, estudar feminismo, casar de sandálias havaianas...
É como dizem, "meninas boas vão pro céu, meninas más vão pra qualquer lugar..."
Quando se é migrante, seus laços com qualquer lugar são tão tênues que mudar nem sempre é a questão. Permanecer, tanto quanto mudar, é uma escolha. Essa escolha é ainda mais clara na vida de um migrante. Se estou aqui é porque quero e escolhi estar. Remei contra a corrente do que se esperava de mim, pra vir parar onde eu escolhi, como escolhi.

Nesse post tão emotivo, encerro com uma linda performance de arte. A música em questão na voz de Bethânia sempre maravilhosa.
Antes disso, transcrevo um trecho do filme Frida que acho lindíssimo: o brinde da amiga de Frida e Diego no dia de seu casamento. Resume meu sentimento sobre o amor e o casamento por opção revolucionária.

"I don’t believe in marriage. No, I really don’t. Let me be clear about that.
I think at worst it’s a hostile political act, a way for small-minded men to keep women in the house and out of the way, wrapped up in the guise of tradition and conservative religious nonsense.
At best, it’s a happy delusion. These two people, who truly love each other and have no idea how truly miserable they are about to make each other.
But, when two people know that, and they decide with eyes wide open to face each other and get married anyway, then I don’t think it’s conservative or delusional. I think it’s radical and courageous…and very romantic.
To Diego and Frida."

domingo, 14 de março de 2010

O caminho é in: pratique a autocontenção!

Todo mundo tem sempre uma opinião. Sempre. Uma opinião importante que merece ser contemplada, diga-se de passagem. Quer saber minha opinião sobre isso? Corra! Ou então escute atentamente, murmure palavras de concordância e depois esqueça. Cada pessoa é um universo particular. Algumas partes são bonitas, outras nem tanto. O fato é que cada um tenta lidar com suas dores e delícias da melhor forma possível - ou não! Eu costumava ter essa utopia infantil que os adultos seriam mais maduros para lidarem com suas próprias questões. Doce ilusão. Os adultos são aqueles que jogam a neurose no ventilador para valer. Respinga para todo lado, salve-se quem puder. Ao contrário do que me dizem, não sei se quero um namorado, mudar de cidade ou de apartamento. Não pensei direito em casamento ou em ter filhos. Minha rotina de acordar às cinco horas da manhã e chegar em casa à meia-noite tem me feito olhar para a realidade de um jeito brutal. Não há espaço para mais nada além do real. Hoje o meu maior propósito é encontrar caminho em meio a tudo isso. Mas é difícil ouvir minha própria voz em meio a tantos ruídos. Falta sintonia fina do meu rádio mental. Eu que sempre fui bem quieta, que falo pouco, ouço muito e observo demais. Sempre tem alguém querendo preencher os espaços vazios do meu formulário. Eu só procuro um espaço mais são e mais meu onde eu possa ser sem cobranças. Acho engraçado que isso seja interpretado como falta de obviedade ou mistério pelos outros, porque todo mundo tem que lidar também com sua própria concha - que existe mesmo nos mais comunicativos. Respire e inspire. Relaxe. Pense um pouco. Ouça a sua própria voz. Reflita sobre as suas próprias questões. Está lançada a campanha: pratique a autocontenção!


(...) A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda”.
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. (...)
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.(...)"

(Carta ao Zézim - Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 8 de março de 2010

“No dia em que me perdi foi q aprendi a brilhar”*: a vida como a escrita tem tempo próprio independente do nosso querer.

Sempre faço plano mirabolantes de escrever 60 páginas em 5 dias. Coisas assim. Esses planos costumavam dar mais certo antigamente. Não, não é que eu esteja ficando velha e não dê mais conta de passar a noite em claro, ou de escrever sem parar.

O problema é que eu tenho 30 anos, né?

Com 30 anos, vc fica mais critica. Vc espera mais de si e imagina que as pessoas também estão esperando mais. Não tenho mais como escrever qualquer coisa. Preciso ter cuidado com o que falo, de onde falo, de onde retiro meus pressupostos. Mil exigências de uma vida acadêmica intelectualmente honesta.

O problema é identificar o quando estou apenas sendo preocupada com a qualidade e com a honestidade do trabalho e o quando estou sendo neurótica e deixando a mania de perfeição me paralisar ou prorrogar até o infinito o final de um texto.

Nunca demorei mais de 30 min para escrever um desses posts. Às vezes, em menos de 15 minutos estão prontos. No entanto, posso levar um dia inteiro para escrever meia página de um artigo que está com quase três meses de atraso.

Pânico total. (www.writeordie.com)

O mesmo acontece com a vida. Faz quase um mês que escrevi aqui minhas resoluções de ano 30. Nenhuma delas está cumprida. Estou trabalhando nelas, burilando meu coração e minha mente.

Escrever é um processo construído através de leitura, observação, reflexão... Para escrever algo minimamente interessante e relevante é preciso ter a humildade de estudar bastante antes de nos pronunciarmos e a arrogância de achar que conseguimos refletir algo a mais do que os outros e, portanto, será importante o “mundo” poder dispor de nossos escritos.

Ontem, em conversa com Mafalda e o marido dela e falávamos da importância de certas pessoas como Socrates ou Jesus. Nunca escreveram uma linha. Mas há milênios influenciam a humanidade.

Não queria influenciar durante milênios não, mas se não tivesse a pretensão de influenciar um pouquinho, de me meter um pouquinho que seja, eu ficaria calada e eu não sei calar. Ou não quero.

Viver também é um processo no qual é preciso se reconstruir dia-a-dia com a humildade de notar que precisamos sim mudar muito em nós mesmos e com a arrogância de acharmos que mesmo estando longe de sermos a melhor versão de nós mesmos merecemos o amor e a felicidade do modo mais pleno possível.

Quem nunca quis dar uma adiantada na vida, para chegar logo naquele ponto sonhado? Não adianta. É preciso estar pronto. É preciso perder-se, moldar-se, recriar-se .

Entre a vida e a escrita; a vida na escrita; a escrita na vida; a vida com a escrita, vou vivendo com a arrogância e a humildade que me guiam e me desviam, mas que acima de tudo me fazem aprender.

* Maria Bethania canta tudo que eu sinto, senti ou quero vir a sentir.

O vídeo abaixo não tem a ver diretamente com o post, mas a dor que ela passa e sua beleza, falam diretamente comigo e meus sentimentos:

Como vcs vêem muito antes da globo permitir que Thais Araujo mostrasse a beleza de seus cachos, antes mesmo de Vanessa da Mata nascer, Bethania já estava linda, confortável e poderosa!

Bem, e Chico? Chico não precisa de justificativa para estar em lugar algum, não é? Mas, essa música tem tudo a ver com o post. rsrs Para mim, não fala só da busca pelo amor, mas por tudo aquilo que queremos, porém a vida ainda está dizendo: calma, para que a pressa? Como dizia meu pai “a pressa é inimiga da perfeição!”:

sábado, 6 de março de 2010

Tempo lógico ou ejaculação precoce?

Minha analista é adepta do tempo lógico. As sessões não têm que durar uma hora, quando ela acha que falei uma questão-chave, ela levanta e encerra a sessão. Em geral, acho que surte efeito. Eu fico atordoada de ter dito algo que eu nem imaginava pensar. Ah, o poder das palavras…
O problema é que minhas sessões não têm durado mais que vinte minutos. Talvez eu chegue muito rápido às questões-chave e isso seja positivo. Mas tenho pensado em mudar meu horário, quase na hora do almoço, talvez ela esteja com fome e não se concentre…
Nesse carnaval, saí numa Escola de Samba. Mal começou, já tinha acabado, negócio meio estranho. De novo tava lá a sensação da ejaculação precoce, prazer mal satisfeito.
Pra um prazer satisfazer, tem que durar? Ou ele pode existir absolutamente?
Por outro lado, tenho um amigo que se gabava de demorar 45 minutos pra gozar e assim, segundo o próprio, dar muito prazer às parceiras. Todos os amigos comentavam isso como uma grande vantagem. Não sei quanto às outras mulheres, mas acho que um cara que demora sempre tanto pra gozar tá fadado a torrar a paciência de uma indivídua que às vezes só quer uma rapidinha. Vantagem pra mim é o cara controlar pra gozar quando quiser.
Então prazer que satisfaz é aquele que dura o tempo certo?
Eu não era tão exigente. Mas me aproximando dos 30, troco cinco coca-colas zero por uma normal bem gelada. Se for pra ganhar celulite, que valha à pena até a última gota. Daqui a 2 anos, não terei nunca mais vinte e alguns anos. A mudança de década dá um peso de urgência: sinto que tenho que me realizar sem as repressões que tive quando adolescente adulta.
A questão é aceitar que não há realização plena, que às vezes nem sabemos o que nos aproximaria de algo assim e que as frustrações virão. Pra não se culpar por ter "se gastado em vão", há que se gastar com firmeza de propósito.

Encerro com o hilário taxista analista adepto do tempo lógico vivido por Luís Fernando Guimarães:

quarta-feira, 3 de março de 2010

Em resposta à Vicky...

Uma amiga minha a quem chamarei aqui de Vicky, pq a acho em muitos aspectos inclusive físicos parecida com a personagem do filme de Woody Allen, disse-me outro dia que não acreditava nessa história de bissexualidade. Quer dizer, pelo menos não em relação a minha pessoa.

Ontem, estava brincando sobre isso e pensei: eu não faço diferenciação de gênero nos meus relacionamentos, mas faço seleção ideológica. É uma seleção como outra qualquer, não é? Só, digamos, um pouco diferente da maioria.
Tenho pensado sobre o que ela me disse.

Se algo que nos dizem fica em nossa mente deve fazer algum sentido, não é?
Mais uma faceta das minhas indefinições aos 30 anos. Se aos 15 me dissessem que aos 30 eu não teria nem a definição do gênero da pessoa com quem penso em construir um relacionamento o mais duradouro possível, eu ira rir e pensar: tá louco?!

Pois é. Eu não sei e por mais que não goste de admitir, isso me incomoda às vezes. Primeiro, pq as pessoas ou não acreditam, ou vem com a fatídica pergunta mais o que vc gosta mais? 70%/30%, 60%/40%? Não pode ser 50%/50%!! Como se fosse possível matematicamente contabilizar qualquer de nossos gostos.

Matematizar desejos e sentimentos me parece não só impossível, como insano.

Porém, eu entendo a estranheza das pessoas. Pq eu mesmo me questiono muitas vezes como é possível eu não saber nem isso? 30 anos e todas as indefinições do mundo!!!

O olhar do outro claro que é incômodo. Especialmente, quando você tem enfrentar preconceitos. Lidar com o não-entendimento por parte dos familiares que você mais ama. Mesmo assim, me questiono se é só isso que me incomoda...

Sinceramente e mais uma vez ainda não tenho a resposta. Domingo conheci uma garota, saímos novamente ontem e foi ótimo. Ai me pergunto: será que Vicky não tem razão? Será que não sou gay e fujo de admitir.

Ao mesmo tempo me lembro das boas noites de sexo que tive com homens. Rememoro sentimentos e dores devotados a vários deles ao longo dos anos.

Vejo, muitas pessoas que se expressam como bissexuais relegarem isso apenas a questão sexual, dizendo posso curtir o sexo com ambos os gêneros. Isso é verdade para mim. No entanto, também é verdade que sou capaz de devotar afeição a ambos.
Portanto, qualquer escolha peremptória para um dos pólos me parece falsa.

Se tudo isso é verdade, pq ainda me incomodo em me questionar sobre isso? Será que o olhar do outro é tão decisivo para mim? Será que tem a ver com o prejuízo que isso causa as minhas relações familiares?

É tudo confuso demais mesmo, pois por outro lado me orgulho de me sentir capaz de me entregar a histórias que me pareçam verdadeiras independente do gênero do outro. Sinto por não ter uma resposta fechada.

Entre dúvidas e confusões, vou vivendo o amor e o sexo do modo como a vida me traz e eu me permito. Como diz a avó de um amigo meu:"qualquer paixão me diverte".

Super me identifico com o finalzinho dessa cena (precisamente os últimos 10 segundos):


sábado, 27 de fevereiro de 2010

Não era um tênis maior o que ele queria…

Sonho com Chico Buarque há anos. Sempre quis estar com ele por alguns minutos. Não necessariamente em alguma incursão sexual. Embora, obviamente não o recusaria. Mas, meu desejo real era que ele conversasse comigo. Soubesse por alguns momentos que eu existia no mundo, sabe? Imagina Chico Buarque ouvindo minha opinião, rindo de alguma bobagem que eu houvesse dito...

No entanto, eu sempre pedi. Quero ver Chico Buarque!!! Quero ver Chico Buarque!!!
Um dia estava olhando o mar e meu santo, que é um anjo, bateu no meu ombro. Olhei para trás sem razão aparente e o vi já de costas. Como ele entrou no banheiro público tive tempo de correr para o outro lado e assim passamos a andar um em direção ao outro por alguns segundos. Melhor dizendo eu em direção a ele. Ele estava apenas continuando seu caminho. Sequer me viu.
Moral da história: pedi errado. Pedi quero ver Chico Buarque. Era para ter pedido, quero que
Chico Buarque me veja, fale comigo, me escute, me ame... rsrs O movimento era contrário. Minha devoção ele já tinha. O que eu queria era a devoção/atenção dele, ainda que breve.
Eu sempre soube o que eu queria. Já tinha repassado em minha mente uma conversa introdutória fofinha. Mas, ainda assim... Eu pedi errado.
Tenho feito isso muito em minha vida. Em especial quando se trata de relacionamentos. Quero amar, viver junto um tempo, viajar, fazer planos. Mas peço sexo, não exijo compromisso, não me coloco com uma certa entrega. Sigo a risca o manual da mulher solteira-independente-sexualmente-ativa-dona-dos-próprios-desejos. Quando muitas vezes, isso simplesmente não me satisfaz.
Fiquei bastante emputecida com o modo como fui tratada pelo último cara com quem saí. Depois de muito praguejar com minha amiga, me dei conta do seguinte: a culpa é minha. Pedi errado.
Eu disse vamos ficar juntos essa noite sem pensar ou falar sobre nada mais.
Enquanto meu desejo era diverso.
Tenho convicção de que é possível haver sexo sem amor. Acredito que são mais felizes as mulheres que tem essa noção. Afinal, não consigo amar tão facilmente. Isso não me faz abdicar de uma luxuriazinha de vez em quando....
O que me incomoda é que o próprio tempo do sexo acaba sendo antecipado. Às vezes gostaria de ficar um tempo apenas nos amassos, criar intimidade. Gostaria de ter mais romance... Só que eu não peço isso.
Se não peço, como posso ganhar, não é mesmo?
Não me entendam errado, eu odeio esse clichê de que a mulher tem de esperar tanto tempo para dar para alguém para que o relacionamento seja sério. Na verdade, sempre curti isso no relacionamento entre mulheres: fazer o quê e quando dá vontade. Sem ter de se preocupar em parecer fácil ou algo por aí.
Talvez tenha me expressado mal acima. A questão não é o sexo. É como tenho me expresso em relação ao que quero com as pessoas. Eu quero sexo, mas quero mais que isso. Porém, minha auto-suficiência nem sempre permite que isso fique claro em palavras e reações.
A vida não é um filme e não é sempre que teremos alguém para ver dentro de nós quando estamos verbalizando o oposto do que sentimos, não é mesmo? Essa cena diz tudo:



Nem acredito que essa é a primeira vez que a Audrey aparece aqui. Me parece injusto, não é? Ah! Como eu amo esse filme!! Independente de todos os clichês que nele estão. Isso era uma comédia romântica!! Rendo-me, amo esse filme. Amo a Audrey. Olhem ela abaixo cantando, não é simplesmente adorável??!

"Moon River"
music by Henry Mancini, lyrics by Johnny Mercer
Moon River, wider than a mile,
I'm crossing you in style some day.
Oh, dream maker, you heart breaker,
wherever you're going I'm going your way.
Two drifters off to see the world.
There's such a lot of world to see.
We're after the same rainbow's end--
waiting 'round the bend,
my huckleberry friend,
Moon River and me.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Recordar, repetir e elaborar*

Se tem um binômio sempre presente na minha vida é o da autonomia versus dependência. Por muito tempo, conferi basicamente só a mim mesma a primeira característica e a todos à minha volta, a segunda. Assim, irmã mais velha não se tornou só um lugar na árvore geneológica, mas um estilo de vida. Cuido de resolver e me sentir responsável pelos problemas de todos, da minha irmã, da minha mãe, das pessoas com quem me relacionei… Há ao menos dois elementos intrínsecos nesse padrão de repetição: minha arrogância em me considerar mulher-maravilha-resolve-tudo e a opressão de não poder falhar nunca, de nunca poder precisar de ajuda.

Sempre tive um pé atrás com o processo da psicanálise. Meu preconceito de leiga no assunto é de que a psicanálise é muito baseada na superdeterminação dos traumas de infância na vida adulta. E “traumas” de infância não faltaram na minha relação familiar, apesar de todos os esforços dos meus pais que reconheço hoje. Logo, para mim, era ainda mais difícil aceitar a psicanálise por aquilo que eu julgava ser: a inescapável repetição de padrões apreendidos dos traumas de infância.

Há um mês, finalmente deitei no divã da minha analista, que comecei a frequentar a dois meses e meio, fruto de um reconhecimento meu de que não consigo resolver tudo sozinha: uma doença grave acometeu uma pessoa que amo e não sabia se chorava, se rezava, apesar de duvidar da existência de Deus, se simplesmente desistia de pensar em tudo isso e vivia em negação do problema… objetivamente, não havia nada a fazer além de manter a serenidade e ter fé em algum sentido maior da vida, mesmo que nem sempre o entendamos.

Psicanálise não é sobre repetição eterna como uma pura reprodução de padrões. É sobre o entendimento da frequente retomada de padrões, mas SEMPRE abrindo espaço pro advento do “impossível”. Milagre, mistério, mágica… esse espaço inexplicável pela razão desfaz o argumento da superdeterminação. Há tendências baseadas em experiências do passado, mas nada está determinado. O que está por vir não está escrito em pedra em lugar algum, está sendo escrito, como aqui agora.

* Texto do Freud sobre a técnica da psicanálise, disponível na web em suas obras completas.

Um pouquinho de humor sobre os clichês a respeito dos analistas (Fonte: http://blogdogalhardo.zip.net/arch2008-03-23_2008-03-29.html):



















E, claro, o impagável Woody Allen em entrevista a respeito. Possivelmente um dos principais artistas a utilizar a psicanálise em sua arte, presente em diversos filmes.


segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Perdas e danos

É fato que depois dos vinte há inevitavelmente uma bagagem que se carrega. Grande ou pequena. Boa ou ruim. Confesso que meus vinte anos estão terminando e levando consigo quase toda a minha visão cor de rosa do mundo. Eu sinto falta do rosa. Mas ele ficou lá quando aos vinte anos eu perdi meu pai. Assim, de repente, em meio a uma tarde de sábado. Não sei se é possível depois de algo assim voltar a confiar que as coisas continuarão como estão se você piscar os olhos. Eu vinha de um conto de fadas e minha família seguia à risca o manual das famílias perfeitas. E eu sinto saudades. Do meu pai que eu conheci e de tudo o que não vivemos. Mais do que isso, eu sinto saudades de quem eu era naquela época, tão certa do que eu queria e absolutamente convencida de que o futuro era uma linha reta em direção ao meu objetivo. Depois, perdi um grande amor, mudei para longe de todo mundo que eu conhecia, perdi prazos, refiz o mestrado. Fiquei cética e percebo que estou cada vez mais impaciente e mal educada. Detesto quando dizem que é preciso aproveitar a vida e pensam em sol, beijo na boca e risadas intermitentes. A certeza da fugacidade da vida não me deu um desespero incontrolável por oxigênio. Eu passei os últimos anos rejeitando veementemente o supérfluo como se eu não entendesse porque as pessoas perdem tempo com o que não é profundo, verdadeiro e visceral. Aos poucos, porém, vou aceitando que as amenidades fazem parte da vida. Aceito que tudo mudou, que o rosa se foi, que o meu pai se foi e agradeço por ele ter sido um ser humano excepcional que tocou a vida de muita gente. Aceito que a minha família mudou. Aceito que eu cresci. Aprendo que aproveitar a vida para mim significa continuar fazendo o que eu acredito, seguindo esse meu futuro de linhas tortas. Gosto da ideia que boa madeira não cresce com o sossego.
"A vida far-nos-á seguir caminhos diversos. Contudo, constituímos alguns laços. Terminaram os anos infantis, irresponsáveis. Contudo, forjamos algumas ligações. Acima de tudo, herdamos tradições.   Marcos de pedra estão aqui há seiscentos anos. Nestas paredes encontram-se inscritos nomes de militares, estadistas, até mesmo de alguns poetas infelizes (o meu estará entre os deles). Deus abençoe as tradições, todos os limites destinados a nos salvaguardar! Estou deveras grato a todos vós, homens de capas negras, e também a vós, já mortos, por nos terem guiado; contudo, ao fim, ao cabo, o problema permanece. As diferenças ainda não foram resolvidas. As flores continuam a espreitar pelas janelas. Vejo aves selvagens, e no meu coração agitam-se impulsos ainda mais selvagens que os pássaros. Os meus olhos têm uma expressão desvairada; aperto os lábios com força. A ave voa; a flor dança; mas nunca deixo de escutar o bater monótono das ondas; e a fera acorrentada continua a bater as patas lá na praia. Não pára de bater. Bate e vai batendo." (Virginia Woolf - As Ondas).

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Meu coração não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer...

Carnaval. Período de aprendizado. Entre muitas e muitas cervejas. Alguns cigarros. Sambas infinitos. Aprendi e tomei uma decisão. Quero me especializar em novos erros. Para isso preciso deixar para trás os antigos!!!

4 pessoas. Todas têm suas vidas. Nelas se incluem outras pessoas. Nenhuma delas pertence a minha vida. Não compartilham meu dia-a-dia. Não partilham suas vontades e desejos comigo, nem levam os meus em consideração. Não estão erradas. Só não estão aqui pq não sentem que esse é o lugar no qual deveriam estar.

Não as amo. Sequer diria hoje que estou apaixonada por uma deleas. Porém, elas povoam meu pensamento. São capazes de causar arranhões em meu coração e me fazerem questionar o modo como escolho as pessoas a quem devoto emoções.

Me considero uma pessoa melhor hoje do que já fui um dia. Como já disse antes, fiz 30, né? Você amadurece automaticamente quando faz 30!!! Sério sou bem menos ansiosa. Cometo menos erros derivados de impulsividade. Já me convenci de que não dá para obrigar ninguém a entrar na nossa vida. Que essa história de conquistar o outro, é ficção. A pessoa pode ser conquistada pelo seu modo de ser e amar, mas não pq você mandou uma mensagem romântica ou flores. Não que esses gestos sejam ruins. São um agrado, um sorriso. Mas, não são eles que conquistam. Quem conquista é quem somos. Se a outra pessoa não foi conquistada por nós mesmos! É a vida. Já aconteceu conosco também.

Vamos sambando para frente...

Uma amiga ontem disse q tínhamos de chegar até o fim do dia para nos desejarmos feliz ano novo no último bloco, pois o ano só começa hoje mesmo...

Sendo assim, segue minha listinha de resoluções de ano 30:

  1. Terapia, terapia, terapia... (o pq há de ser desvelado)
  2. Investir nos novos erros;
  3. Deixar para trás os erros antigos;
  4. Jogar no baú tudo e todos/as que não devem estar na ativa no meu coração;
  5. Não idealizar pessoas e situações;
  6. Me convencer que mesmo superheroinas só podem salvar alguém se lhes derem às mãos;
  7. Lembrar que mesmo superheroinas também precisam ser salvas às vezes;
  8. Cuidar da carreira e deixar a vida trazer o resto...;
  9. Zerar minhas dívidas com bancos e instituições financeiras;
  10. Assumir um pouso (contrato de aluguel por 30 meses cumpridos até o final!)

Eu já devia ter colocado essa cena antes, tem mais a ver com outros posts. Mas, não conseguia achar. Mafalda me fez esse grande favor. Os dois primeiros minutos são muito minha cara. Super me identifico com Phoebe nessa situação (infelizmente não achamos com legendas):

Não dá para faltar o sambinha de acompanhamento, né?:






sábado, 13 de fevereiro de 2010

Pecadinho

Esse carnaval tinha planejado viajar. Aí resolvi sair num bloco pré-carnaval fim de semana passado e o bichinho do carnaval me mordeu. Já era. Convenci marido, decidi ficar.

"A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho pra fazer a fantasia..."
Trabalhei o ano inteiro, pedi demissão há pouco mais de um mês, entrei em crise sobre minha forma de "fazer política". Politicar exige nervos de aço, mas isso é tema pra outro post.

"Essa noite não quero saber de conselho,
esquece, deixe pra lá,
me arranje um pecado quente pra me consolar,
pense bem que depois tem o ano inteiro pra gente pagar"

Pra quem foi adolescente adulta e agora é uma adulta adolescente, se aproximar dos 30 tem uma leveza inesperada. E carnaval é tempo bom de transgressão. Quero pecadinhos sem culpa. Leveza e frenesi.

Já diria Tom Zé, nessa música que resume meu espírito, na voz da poderosa Márcia Castro: