Tom Ford, ex-estilista da grife italiana Gucci, ao final de seu desfile aclamado pelo mundinho fashion em 2001, analisa: "ninguém precisa de mais um sapato de 500 dólares, é meu trabalho criar essa necessidade".
Cena 2:
Jean Paul Gaultier nos bastidores de seu desfile de alta costura para outono 2009 trabalha ensandecido fazendo mudanças em suas roupas a menos de 24 horas do início do evento. Uma das costureiras tem que refazer à mão um casaco 7/8 todo montado com retalhos de couro e crochê.
Cena 3:
Janeiro, verão, Brasil. Os dois principais eventos da moda brasileira, Fashion Rio e São Paulo Fashion Week, mostram as tendências para a próxima estação. Nos pavilhões do evento, moderninhos, blogueiros, antenados, celebridades, curiosos, desocupados, estilosos e descolados conferem os desfiles.
As três cenas fazem parte desse show permanente que é a moda. Pode escolher: arte, consumismo ou estilo?
Logo, logo os editoriais de toda revista feminina vão estampar as novas tendências. O que pode e não pode fazer e como combinar as novas peças. Esqueça a estação passada. Se o seu cabelo era comprido e cacheado.Que horror, ultrapassado! Pode ir cortando e fazendo chapinha. Nas unhas, tons coloridos, por favor. Jogue fora aqueles esmaltes clarinhos hoje mesmo. Aproveite e jogue também calças apertadas e bolsas muito grandes porque agora é a vez da cintura alta, calças largas tipo boyfriend e bolsas menores com correntes douradas. Ah, lembra das pavorosas ombreiras Didi Mocó dos anos 80? Pois é, elas também estão de volta! E você, mulher, vai ficar perdida achando que não tem mais nada para vestir ou que "precisa" daquele sapato novo amarelo fluor.
Eu gosto de moda, principalmente quando envolve sapatos e liquidações. Fugindo do lugar comum da futilidade, sempre pensei na moda mais como um elemento de expressão pessoal. Alguns se vestem para dizer que não estão nem aí. Outros, mais sóbrios, para mostrar que são tradicionais. Há aqueles que seguem tribos ou querem aparecer simplesmente. E até mesmo algumas pessoas se vestem para se tornarem invisíveis. Não importa, a vida requer um dress code. Aos poucos, no entanto, estou me despindo das regras e visto o que tenho vontade e da forma como eu bem entendo. Eu me importo cada vez menos. Misturo estampas, prefiros saias e vestidos e não uso tênis. Discordo também do saudoso Yves Saint Laurent, o estilo não é eterno. Modismos, fetichismos, must-haves e descoladinhos me irritam. Passo longe da ditadura de Anna Wintour e "bíblias" como Vogue. Se um dia Coco Chanel fez vestidos para libertar a mulher, hoje a moda está praticamente contida em si mesma. Afinal, quem vai desembolsar mais de 500 reais por uma blusinha?
Por outro lado, ser você mesmo virou tendência. Há na web a proliferação de blogs de estilo pessoal em que o que importa é como gente comum combina o que tem no armário (bons exemplos: Sartorialist, What Katie Wore, Hoje vou assim, Rio Etc). Mais Jean Paul Gaultier do que Tom Ford, por favor. Para mim, moda é quem nem aquele slogan de cigarro nos anos 90: cada um na sua, mas com alguma coisa em comum.
