terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O inominável


Chegar mais perto de algum tipo de maturidade incorpora mais do que algumas rugas ou preocupações. Há em mim a instalação gradual de algum tipo de ranzinzice juntamente com alguma amargura. No fundo, pouca coisa me surpreende agora e isso faz falta. Férias, sol e os indícios do futuro que estão todos lá, fáceis demais de serem lidos. Para as bebedeiras, ressaca. Para os amores, ressaca. É assim, como foi decidido. Os sorrisos e conversas e a próxima música a ser tocada no violão. E, claro, o refrão que eu já conheço. Quem precisa saber ler as cartas de tarô quando a neurose alheia me diz tudo o que eu preciso saber? Não obstante, o auto-conhecimento que leva ao labirinto de mim mesma invariavelmente traz o sarcasmo e o ceticismo. Eu vi o segundo filme da saga Crepúsculo e ri em todos os momentos errados, tamanho o meu veneno. Não é que eu não ame, pelo contrário. Agora eu amo de uma forma cada vez mais límpida, mais rica e maior. Talvez por isso me reste tão pouca coisa. Muito pouco se propõe a ser construído sobre fundações duradouras de concreto. E talvez por isso eu tenha perdido muito da minha fé nas pessoas. Nobody ever changes, diria o guru dr. House. Não há mesmo surpresas. Ao final é só uma questão de salvar os sobreviventes do furacão ou os móveis que restaram da enchente. Apesar da profusão de sentimentos inominados, não é de tristeza ou descrença que falo. É só a saudade que sinto de acreditar em virar a esquina, destino, bola de cristal e mensagens de texto sinceras de madrugada. E a constatação de que as pessoas são insanas. E, como bem observou Einstein, insanidade é fazer as mesmas coisas repetidas vezes esperando obter resultados diferentes.

6 comentários:

Audrey disse...

Vc traduziu e-xa-ta-men-te o q estou sentindo!!! É isso!! São poucas as surpresas positivas. E eu adoro surpresas!! Mas, como diz minha amiga, Mafalda: as surpresas ainda exitem, são mais raras porém quando ocorrem mais intensas. Assim espero!! Minhas reações a acontecimentos recentes me mostram o quanto estou anestesiada. Mas também em trazem uma certa tranquilidade de ver q estou mais dona de mim! Sei o q quero e não me deixo mais levar fácil não, sabe? Tudo me remete a o "segundo q chegou (...)Me encontrou tão desarmada que arranhou meu coração. Mas não me entregava nada, e assustada, eu disse não."
Não são mais segundos/as, masssssss é esse o espírito.

Tatiana disse...

"Há em mim a instalação gradual de algum tipo de ranzinzice juntamente com alguma amargura".
Mas o que é isso, mulher? A minha biografia?

Não sei bem o que te dizer, mas compartilho dos sentimentos.

Diana disse...

Na vida, muitas vezes oscilamos entre uma tendência à fatalidade e um otimismo desvairado... uma oscilação que no meu caso pode acontecer num só dia!
Acredito que a "obrigação de ser feliz" oprime e acabamos nos alienando do que é essencial... às vezes temos até que nos esforçar pra lembrar.
Sinto muito de mim em muitos momentos ao te ler nesse post tão certeiro.
Acho que precisamos de um veneno antimelancolia pra nos sacudir. Ou então do espírito da avó de meu marido de 90 e tantos anos que às vezes diz: "qualquer paixão me diverte"!!

Maria B. disse...

Quase nem postei esse texto, tava achando meio nonsense, bom saber que o sentimento é compartilhado. Só gostaria de enfatizar que não é mesmo uma tristeza ou melancolia, as paixões estão todas aqui, graças! Mas sinto falta dessa "capacidade de se deslumbrar e se surpreender", acho que ficar mais dona de si leva a um certo cinismo. Eu realmente li a saga Crepúsculo nas férias e me peguei cínica em muitos momentos, afinal, pensei: a vida é muito mais chata sem acreditar em histórias de amor impossíveis e improváveis hehehehe

Errare humanum est disse...

Quando os sentidos falham e a razão é insuficiente, não parece haver caminho nem esquina. No fundo do próprio silêncio há sentido. "Os ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança" (Drummond).

Unknown disse...

Que texto belíssimo!
Amei.
"Ohooo cupido pra longe de mim"
Eu estou em uma fase V de Vingança, Kill Bill, morda os pescoços e espalhe ranzinzice e ressaca
...
Assisti House esses dias e morri de rir com ele falando que ia pra casa assistir maratona de "The L World" ... no mudo... Huahuahuahuahau.

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