Sonho com Chico Buarque há anos. Sempre quis estar com ele por alguns minutos. Não necessariamente em alguma incursão sexual. Embora, obviamente não o recusaria. Mas, meu desejo real era que ele conversasse comigo. Soubesse por alguns momentos que eu existia no mundo, sabe? Imagina Chico Buarque ouvindo minha opinião, rindo de alguma bobagem que eu houvesse dito...
No entanto, eu sempre pedi. Quero ver Chico Buarque!!! Quero ver Chico Buarque!!! Um dia estava olhando o mar e meu santo, que é um anjo, bateu no meu ombro. Olhei para trás sem razão aparente e o vi já de costas. Como ele entrou no banheiro público tive tempo de correr para o outro lado e assim passamos a andar um em direção ao outro por alguns segundos. Melhor dizendo eu em direção a ele. Ele estava apenas continuando seu caminho. Sequer me viu.
Moral da história: pedi errado. Pedi quero ver Chico Buarque. Era para ter pedido, quero que
Chico Buarque me veja, fale comigo, me escute, me ame... rsrs O movimento era contrário. Minha devoção ele já tinha. O que eu queria era a devoção/atenção dele, ainda que breve.
Eu sempre soube o que eu queria. Já tinha repassado em minha mente uma conversa introdutória fofinha. Mas, ainda assim... Eu pedi errado.
Tenho feito isso muito em minha vida. Em especial quando se trata de relacionamentos. Quero amar, viver junto um tempo, viajar, fazer planos. Mas peço sexo, não exijo compromisso, não me coloco com uma certa entrega. Sigo a risca o manual da mulher solteira-independente-sexualmente-ativa-dona-dos-próprios-desejos. Quando muitas vezes, isso simplesmente não me satisfaz.
Fiquei bastante emputecida com o modo como fui tratada pelo último cara com quem saí. Depois de muito praguejar com minha amiga, me dei conta do seguinte: a culpa é minha. Pedi errado. Eu disse vamos ficar juntos essa noite sem pensar ou falar sobre nada mais.
Enquanto meu desejo era diverso.
Tenho convicção de que é possível haver sexo sem amor. Acredito que são mais felizes as mulheres que tem essa noção. Afinal, não consigo amar tão facilmente. Isso não me faz abdicar de uma luxuriazinha de vez em quando....
O que me incomoda é que o próprio tempo do sexo acaba sendo antecipado. Às vezes gostaria de ficar um tempo apenas nos amassos, criar intimidade. Gostaria de ter mais romance... Só que eu não peço isso.
Se não peço, como posso ganhar, não é mesmo?
Não me entendam errado, eu odeio esse clichê de que a mulher tem de esperar tanto tempo para dar para alguém para que o relacionamento seja sério. Na verdade, sempre curti isso no relacionamento entre mulheres: fazer o quê e quando dá vontade. Sem ter de se preocupar em parecer fácil ou algo por aí.
Talvez tenha me expressado mal acima. A questão não é o sexo. É como tenho me expresso em relação ao que quero com as pessoas. Eu quero sexo, mas quero mais que isso. Porém, minha auto-suficiência nem sempre permite que isso fique claro em palavras e reações.
A vida não é um filme e não é sempre que teremos alguém para ver dentro de nós quando estamos verbalizando o oposto do que sentimos, não é mesmo? Essa cena diz tudo:
Nem acredito que essa é a primeira vez que a Audrey aparece aqui. Me parece injusto, não é? Ah! Como eu amo esse filme!! Independente de todos os clichês que nele estão. Isso era uma comédia romântica!! Rendo-me, amo esse filme. Amo a Audrey. Olhem ela abaixo cantando, não é simplesmente adorável??!
"Moon River" music by Henry Mancini, lyrics by Johnny Mercer Moon River, wider than a mile, I'm crossing you in style some day. Oh, dream maker, you heart breaker, wherever you're going I'm going your way. Two drifters off to see the world. There's such a lot of world to see. We're after the same rainbow's end-- waiting 'round the bend, my huckleberry friend, Moon River and me.
Se tem um binômio sempre presente na minha vida é o da autonomia versus dependência. Por muito tempo, conferi basicamente só a mim mesma a primeira característica e a todos à minha volta, a segunda. Assim, irmã mais velha não se tornou só um lugar na árvore geneológica, mas um estilo de vida. Cuido de resolver e me sentir responsável pelos problemas de todos, da minha irmã, da minha mãe, das pessoas com quem me relacionei… Há ao menos dois elementos intrínsecos nesse padrão de repetição: minha arrogância em me considerar mulher-maravilha-resolve-tudo e a opressão de não poder falhar nunca, de nunca poder precisar de ajuda.
Sempre tive um pé atrás com o processo da psicanálise. Meu preconceito de leiga no assunto é de que a psicanálise é muito baseada na superdeterminação dos traumas de infância na vida adulta. E “traumas” de infância não faltaram na minha relação familiar, apesar de todos os esforços dos meus pais que reconheço hoje. Logo, para mim, era ainda mais difícil aceitar a psicanálise por aquilo que eu julgava ser: a inescapável repetição de padrões apreendidos dos traumas de infância.
Há um mês, finalmente deitei no divã da minha analista, que comecei a frequentar a dois meses e meio, fruto de um reconhecimento meu de que não consigo resolver tudo sozinha: uma doença grave acometeu uma pessoa que amo e não sabia se chorava, se rezava, apesar de duvidar da existência de Deus, se simplesmente desistia de pensar em tudo isso e vivia em negação do problema… objetivamente, não havia nada a fazer além de manter a serenidade e ter fé em algum sentido maior da vida, mesmo que nem sempre o entendamos.
Psicanálise não é sobre repetição eterna como uma pura reprodução de padrões. É sobre o entendimento da frequente retomada de padrões, mas SEMPRE abrindo espaço pro advento do “impossível”. Milagre, mistério, mágica… esse espaço inexplicável pela razão desfaz o argumento da superdeterminação. Há tendências baseadas em experiências do passado, mas nada está determinado. O que está por vir não está escrito em pedra em lugar algum, está sendo escrito, como aqui agora.
* Texto do Freud sobre a técnica da psicanálise, disponível na web em suas obras completas.
Um pouquinho de humor sobre os clichês a respeito dos analistas (Fonte: http://blogdogalhardo.zip.net/arch2008-03-23_2008-03-29.html):
E, claro, o impagável Woody Allen em entrevista a respeito. Possivelmente um dos principais artistas a utilizar a psicanálise em sua arte, presente em diversos filmes.
É fato que depois dos vinte há inevitavelmente uma bagagem que se carrega. Grande ou pequena. Boa ou ruim. Confesso que meus vinte anos estão terminando e levando consigo quase toda a minha visão cor de rosa do mundo. Eu sinto falta do rosa. Mas ele ficou lá quando aos vinte anos eu perdi meu pai. Assim, de repente, em meio a uma tarde de sábado. Não sei se é possível depois de algo assim voltar a confiar que as coisas continuarão como estão se você piscar os olhos. Eu vinha de um conto de fadas e minha família seguia à risca o manual das famílias perfeitas. E eu sinto saudades. Do meu pai que eu conheci e de tudo o que não vivemos. Mais do que isso, eu sinto saudades de quem eu era naquela época, tão certa do que eu queria e absolutamente convencida de que o futuro era uma linha reta em direção ao meu objetivo. Depois, perdi um grande amor, mudei para longe de todo mundo que eu conhecia, perdi prazos, refiz o mestrado. Fiquei cética e percebo que estou cada vez mais impaciente e mal educada. Detesto quando dizem que é preciso aproveitar a vida e pensam em sol, beijo na boca e risadas intermitentes. A certeza da fugacidade da vida não me deu um desespero incontrolável por oxigênio. Eu passei os últimos anos rejeitando veementemente o supérfluo como se eu não entendesse porque as pessoas perdem tempo com o que não é profundo, verdadeiro e visceral. Aos poucos, porém, vou aceitando que as amenidades fazem parte da vida. Aceito que tudo mudou, que o rosa se foi, que o meu pai se foi e agradeço por ele ter sido um ser humano excepcional que tocou a vida de muita gente. Aceito que a minha família mudou. Aceito que eu cresci. Aprendo que aproveitar a vida para mim significa continuar fazendo o que eu acredito, seguindo esse meu futuro de linhas tortas. Gosto da ideia que boa madeira não cresce com o sossego.
"A vida far-nos-á seguir caminhos diversos. Contudo, constituímos alguns laços. Terminaram os anos infantis, irresponsáveis. Contudo, forjamos algumas ligações. Acima de tudo, herdamos tradições. Marcos de pedra estão aqui há seiscentos anos. Nestas paredes encontram-se inscritos nomes de militares, estadistas, até mesmo de alguns poetas infelizes (o meu estará entre os deles). Deus abençoe as tradições, todos os limites destinados a nos salvaguardar! Estou deveras grato a todos vós, homens de capas negras, e também a vós, já mortos, por nos terem guiado; contudo, ao fim, ao cabo, o problema permanece. As diferenças ainda não foram resolvidas. As flores continuam a espreitar pelas janelas. Vejo aves selvagens, e no meu coração agitam-se impulsos ainda mais selvagens que os pássaros. Os meus olhos têm uma expressão desvairada; aperto os lábios com força. A ave voa; a flor dança; mas nunca deixo de escutar o bater monótono das ondas; e a fera acorrentada continua a bater as patas lá na praia. Não pára de bater. Bate e vai batendo." (Virginia Woolf - As Ondas). .
Carnaval. Período de aprendizado. Entre muitas e muitas cervejas. Alguns cigarros. Sambas infinitos. Aprendi e tomei uma decisão. Quero me especializar em novos erros. Para isso preciso deixar para trás os antigos!!!
4 pessoas. Todas têm suas vidas. Nelas se incluem outras pessoas. Nenhuma delas pertence a minha vida. Não compartilham meu dia-a-dia. Não partilham suas vontades e desejos comigo, nem levam os meus em consideração. Não estão erradas. Só não estão aqui pq não sentem que esse é o lugar no qual deveriam estar.
Não as amo. Sequer diria hoje que estou apaixonada por uma deleas. Porém, elas povoam meu pensamento. São capazes de causar arranhões em meu coração e me fazerem questionar o modo como escolho as pessoas a quem devoto emoções.
Me considero uma pessoa melhor hoje do que já fui um dia. Como já disse antes, fiz 30, né? Você amadurece automaticamente quando faz 30!!! Sério sou bem menos ansiosa. Cometo menos erros derivados de impulsividade. Já me convenci de que não dá para obrigar ninguém a entrar na nossa vida. Que essa história de conquistar o outro, é ficção. A pessoa pode ser conquistada pelo seu modo de ser e amar, mas não pq você mandou uma mensagem romântica ou flores. Não que esses gestos sejam ruins. São um agrado, um sorriso. Mas, não são eles que conquistam. Quem conquista é quem somos. Se a outra pessoa não foi conquistada por nós mesmos! É a vida. Já aconteceu conosco também.
Vamos sambando para frente...
Uma amiga ontem disse q tínhamos de chegar até o fim do dia para nos desejarmos feliz ano novo no último bloco, pois o ano só começa hoje mesmo...
Sendo assim, segue minha listinha de resoluções de ano 30:
Terapia, terapia, terapia... (o pq há de ser desvelado)
Investir nos novos erros;
Deixar para trás os erros antigos;
Jogar no baú tudo e todos/as que não devem estar na ativa no meu coração;
Não idealizar pessoas e situações;
Me convencer que mesmo superheroinas só podem salvar alguém se lhes derem às mãos;
Lembrar que mesmo superheroinas também precisam ser salvas às vezes;
Cuidar da carreira e deixar a vida trazer o resto...;
Zerar minhas dívidas com bancos e instituições financeiras;
Assumir um pouso (contrato de aluguel por 30 meses cumpridos até o final!)
Eu já devia ter colocado essa cena antes, tem mais a ver com outros posts. Mas, não conseguia achar. Mafalda me fez esse grande favor. Os dois primeiros minutos são muito minha cara. Super me identifico com Phoebe nessa situação (infelizmente não achamos com legendas):
Não dá para faltar o sambinha de acompanhamento, né?:
Esse carnaval tinha planejado viajar. Aí resolvi sair num bloco pré-carnaval fim de semana passado e o bichinho do carnaval me mordeu. Já era. Convenci marido, decidi ficar.
"A gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho pra fazer a fantasia..." Trabalhei o ano inteiro, pedi demissão há pouco mais de um mês, entrei em crise sobre minha forma de "fazer política". Politicar exige nervos de aço, mas isso é tema pra outro post.
"Essa noite não quero saber de conselho, esquece, deixe pra lá, me arranje um pecado quente pra me consolar, pense bem que depois tem o ano inteiro pra gente pagar"
Pra quem foi adolescente adulta e agora é uma adulta adolescente, se aproximar dos 30 tem uma leveza inesperada. E carnaval é tempo bom de transgressão. Quero pecadinhos sem culpa. Leveza e frenesi.
Já diria Tom Zé, nessa música que resume meu espírito, na voz da poderosa Márcia Castro:
Estou preocupada pelo fato de ter feito 30 anos e ainda não ter conquistado muito do que pretendia. Entretanto, não posso deixar de pensar nos milhares de jovens brasileiros (em geral, homens, moradores de áreas pobres, negros) que nunca irão chegar a essa idade. O nosso país pratica um verdadeiro extermínio da juventude masculina negra.
Outro dia estava perto de casa e uma mulher na loja narrava que um funcionário muito bom seu havia sido morto no dia anterior. A pergunta que a fizeram indagava o porquê dele ter sido morto. Pode ser viagem minha, mas não havia mais aquele quê de indignação ou surpresa que questiona: o que aconteceu?! Eu sei que vivemos numa sociedade extremamente violenta. Mas, eu duvido que se ela tivesse dito o filho de uma amiga foi morto ontem a reação seria a mesma. Jovem pobre morador de periferia já se espera morte e motivo. Terrrível.
Ah! O motivo?!
Ele saiu de blusa preta e naquela comunidade os traficantes tinham proibido que se usasse preto!!
Essa semana foi amplamente noticiada a morte de um jovem recifense com as mesma características antes citadas. Com um detalhe, ele era um jovem prodígio!! Havia passado em primeiro lugar num vestibular de uma universidade federal apesar de ser proveniente de uma comunidade pobre e ter tido uma vida altamente sofrida. Sua mãe há dois anos dava entrevista orgulhosa por ter conseguido que seu filho fosse para a universidade, passara em primeiro lugar. Iria se formar em setembro. Pretendia seguir a carreira acadêmica. Ante todas as dificuldades que havia vivenciado, eles tinham saído vencedores. A possibilidade de um futuro melhor se descortinava.
Essa semana novamente ela foi chamada às câmeras. Seu filho fora morto. Na sua frente. Todo o futuro sonhado... Fora morto porque viviam numa área de risco. Uma comunidade onde a lei do estado não chega, como tantas outras comunidades pobres deste país. Os assassinos procuravam vizinhos, questionaram se ele tinha informações??? Não??? Atiraram à queima roupa pela má vontade.
Choro ao escrever. Ainda me emociono. Minha capacidade de sentir permanece. Embora com tantas noticias similares seja difícil chorar sempre. Vamos nos defendendo da dor e da perplexidade com indiferença e justificativas fajustas. Quantos não pensam: ah! Deve ter mais aí, ele devia ser envolvido com drogas ou algo assim. Quantas mortes não são justificadas porque os mortos são considerados bandidos, traficantes. Traficantes que vendem o q? Drogas! Para quem? Para a classe média e alta do país poder viajar e fugir de suas dores internas e seus conflitos existenciais. Quando vamos parar com a hipocrisia e vê: só há tráfico porque há consumo!!
Mas, por que estou falando disso?! Esses dois jovens não tinham nada a ver com isso. Eram melhores do que eu e do que muitos que me lêem. Viveram o pior da vida e ainda eram “pessoas de bem”. A questão é: não importa. Não importa quem eles eram. Eram jovens que não vão chegar a crise dos 30, refletir sobre ela ou ser-lhes indiferentes. Eram jovens que tinham sonhos e lutavam como milhares de outros. Estejam trabalhando para o tráfico ou lutando pela vida honestamente são vidas ceifadas diariamente pelo Estado ou com a conivência dele. Com nossa conivência e nosso silêncio.
Para mim, fazer 30 anos também tem a ver com ficar puta com essa merda de mundo que a gente vive. Quando eu tinha 15, achava que podia mudar o mundo. Torná-lo um lugar melhor. Tendo a pensar que continuo tentando, embora seja aquele trabalhinho de beija-flor no incêndio da floresta. Ainda faço pouco, me questiono se posso fazer mais. Já presenciei tanta dor. Quantas pude ou me dispus a aplacar?
Fazer 30 anos tem a ver com querer que os próximos 30 sejam melhores. Fazer 30 anos tem a ver com querer ter filhos. Fazer 30 anos tem a ver com querer que meus filhos/minhas filhas (q virão uma dia!) possam viver num mundo onde possam ter amigos/as (ou serem eles próprios!) brancos, negros, índios, pobres, ricos, gays, héteros, magros, gordos, bonitos, feios, gente diferente, diversa, feliz... Pessoas com crises, dores e amores. Todas questões superáveis, pois poderão viver até a velhice, rir das próprias dores passadas e dos sonhos vividos. Esquecidos?! Jamais!!
“A repressão do amor ilumina os fenômenos dele com muito mais clareza que a mesma experiência. Há virgindades de grande entendimento. Agir compensa, mas confunde. Possuir é ser possuído, e portanto perder-se.” (Fernando Pessoa, Livro do Desassossego)
Muitas vezes me surpreendo com minha capacidade de sentir extremamente e eloqüentemente. A Mafalda antes de se apaixonar pelo marido dela vivia dizendo que achava que na nossa idade não dava mais para sentir essas paixões rasgadas da época adolescente. Nem preciso dizer que ela mudou de idéia, né?
Alguns acontecimentos recentes me colocaram cara a cara com minha capacidade de sentir e a vontade sentir ainda mais. Quando assumimos uma vida independente e nos responsabilizamos pelo peso de nossas escolhas e atitudes, temos maior liberdade. Porém, também temos maiores enfrentamentos.
Resolvi dar para um cara que há muito me fazia estremecer, mas que tem um relacionamento estável com outra. Por muito tempo, pensei que não seria certo fazer isso, nem tampouco seria bom para mim. Refreie o desejo. Quando o sentir me pareceu mais controlado decidi que era hora de ceder.
Cedi. Foi muito bom. Mas, não foi maravilhoso como eu sonhara. Isso não diz nada sobre nossa performance conjunta. Não foi maravilhoso pq eu não podia me permitir sentir. Não estava posto o romance, a conquista, não havia a expectativa do depois. Foi apenas o ceder ao desejo.
Por mais que eu acredite ser possível separar desejo e prazer de sentimentos, esse não era o caso. Não era o que eu queria. Eu gostaria de poder me abrir completamente a todas as emoções. Tenho descoberto que o não-sentir pode ser tão incomodo quanto o sentir quando não se deve.
Em outros tempos, eu fantasiaria que tudo iria mudar. Em breve, ele iria bater em minha porta e declarar-se. Entretanto, esse é mais um dos pesos de “amadurecer”: parar de iludir-se. Tenho 30 anos e quero uma vida verdadeira com alguém que faça parte da minha vida e do meu dia-a-dia. Não posso me permitir ficar devaneando como uma adolescente boba sobre coisas que não acontecerão ou não sei se acontecerão (oh! Esperança boba q nunca me larga a mão)
De tudo, posso dizer que fico feliz por saber que nada nesses 30 anos conseguiu me fazer perder a capacidade de sentir. A vida é hoje. Hoje sou só eu, meus prazos, meus livros e meus temperos. O que me permito é continuar a busca por um sentimento vermelho vibrante que um dia poderei deixar me invadir...!!!
PS: De todo modo, confesso q nesse e em outras situações repito o mantra adolescente para quando queremos fazer algo que não deveríamos fazer: “melhor nos arrependermos do q fizemos do que do que não fizemos”. Ou, bemmmm mais poeticamente falando:
Assim como muita gente, nasci e cresci numa dessas famílias de gente que não se entende. Gente que não sabe se amar sem se machucar. Minha saída pra essa realidade não foi me tornar rebelde – embora altamente contestadora do senso comum – mas sim desenvolver desde cedo uma paixão pelo estrangeiro, terras longíquas onde outra vida parecia possível e onde eu podia encontrar meu “verdadeiro” eu.
Do desejo realizado do primeiro intercâmbio aos 19 até a situação atual de morar no Brasil mas longe de minha cidade natal, passei por diferentes países onde morei, trabalhei, estudei ou só visitei. Aprendi a falar algumas línguas ao ponto de ser confundida por local não raras vezes, conheci lugares distantes só com uma mochila nas costas, guias na mão e uma obsessão na cabeça: conhecer, conhecer, conhecer… o diferente, o novo, o lugar dos sonhos possíveis.
O que sempre evitei foi a estabilidade. Os relacionamentos começavam com um impedimento claro, um alerta ao outro: “nós não temos futuro porque eu vou me mudar em alguns meses…” Que era na verdade um alerta a mim mesma: não quero estabilidade, não quero enfrentar problemas que existem em mim, não quero lidar com questões que emergem de relacionamentos longos.
Há um ano e meio me mudei pela “última” vez e, cansada da vida errante, decidi comprar móveis. Me casei. Decidi que queria fazer minha vida aqui, finalmente. Fiz contrato de aluguel. Faço planos de permanecer. Descobri há algum tempo que os problemas da minha família de origem não melhoravam com a minha fuga. As questões não resolvidas me perseguem como sombra em qualquer continente. O desejo de permanência faz parte do entendimento de que tenho que parar de fugir fisicamente de mim mesma para finalmente buscar me encontrar. Busca que é projeto de uma vida inteira…
Drummond traduziu meu sentimento em poesia há algum tempo:
Diz a astrologia que dos 28 aos 30 anos Saturno faz uma visita insólita retornando ao ponto onde estava no seu nascimento. A bagunça gerada ecoa em crises e questionamentos sem fim unindo três amigas em uma catarse pública e coletiva.