Assim como muita gente, nasci e cresci numa dessas famílias de gente que não se entende. Gente que não sabe se amar sem se machucar. Minha saída pra essa realidade não foi me tornar rebelde – embora altamente contestadora do senso comum – mas sim desenvolver desde cedo uma paixão pelo estrangeiro, terras longíquas onde outra vida parecia possível e onde eu podia encontrar meu “verdadeiro” eu.
Do desejo realizado do primeiro intercâmbio aos 19 até a situação atual de morar no Brasil mas longe de minha cidade natal, passei por diferentes países onde morei, trabalhei, estudei ou só visitei. Aprendi a falar algumas línguas ao ponto de ser confundida por local não raras vezes, conheci lugares distantes só com uma mochila nas costas, guias na mão e uma obsessão na cabeça: conhecer, conhecer, conhecer… o diferente, o novo, o lugar dos sonhos possíveis.
O que sempre evitei foi a estabilidade. Os relacionamentos começavam com um impedimento claro, um alerta ao outro: “nós não temos futuro porque eu vou me mudar em alguns meses…” Que era na verdade um alerta a mim mesma: não quero estabilidade, não quero enfrentar problemas que existem em mim, não quero lidar com questões que emergem de relacionamentos longos.
Há um ano e meio me mudei pela “última” vez e, cansada da vida errante, decidi comprar móveis. Me casei. Decidi que queria fazer minha vida aqui, finalmente. Fiz contrato de aluguel. Faço planos de permanecer. Descobri há algum tempo que os problemas da minha família de origem não melhoravam com a minha fuga. As questões não resolvidas me perseguem como sombra em qualquer continente. O desejo de permanência faz parte do entendimento de que tenho que parar de fugir fisicamente de mim mesma para finalmente buscar me encontrar. Busca que é projeto de uma vida inteira…
Drummond traduziu meu sentimento em poesia há algum tempo:
2 comentários:
Chico Buarque falar por mim (q pena q não é p/ mim. rsrs)
"Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não"
Drummond recitando ele mesmo é um arraso!
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