Estou preocupada pelo fato de ter feito 30 anos e ainda não ter conquistado muito do que pretendia. Entretanto, não posso deixar de pensar nos milhares de jovens brasileiros (em geral, homens, moradores de áreas pobres, negros) que nunca irão chegar a essa idade. O nosso país pratica um verdadeiro extermínio da juventude masculina negra.
Outro dia estava perto de casa e uma mulher na loja narrava que um funcionário muito bom seu havia sido morto no dia anterior. A pergunta que a fizeram indagava o porquê dele ter sido morto. Pode ser viagem minha, mas não havia mais aquele quê de indignação ou surpresa que questiona: o que aconteceu?! Eu sei que vivemos numa sociedade extremamente violenta. Mas, eu duvido que se ela tivesse dito o filho de uma amiga foi morto ontem a reação seria a mesma. Jovem pobre morador de periferia já se espera morte e motivo. Terrrível.
Ah! O motivo?!
Ele saiu de blusa preta e naquela comunidade os traficantes tinham proibido que se usasse preto!!
Essa semana foi amplamente noticiada a morte de um jovem recifense com as mesma características antes citadas. Com um detalhe, ele era um jovem prodígio!! Havia passado em primeiro lugar num vestibular de uma universidade federal apesar de ser proveniente de uma comunidade pobre e ter tido uma vida altamente sofrida. Sua mãe há dois anos dava entrevista orgulhosa por ter conseguido que seu filho fosse para a universidade, passara em primeiro lugar. Iria se formar em setembro. Pretendia seguir a carreira acadêmica. Ante todas as dificuldades que havia vivenciado, eles tinham saído vencedores. A possibilidade de um futuro melhor se descortinava.
Essa semana novamente ela foi chamada às câmeras. Seu filho fora morto. Na sua frente. Todo o futuro sonhado... Fora morto porque viviam numa área de risco. Uma comunidade onde a lei do estado não chega, como tantas outras comunidades pobres deste país. Os assassinos procuravam vizinhos, questionaram se ele tinha informações??? Não??? Atiraram à queima roupa pela má vontade.
Choro ao escrever. Ainda me emociono. Minha capacidade de sentir permanece. Embora com tantas noticias similares seja difícil chorar sempre. Vamos nos defendendo da dor e da perplexidade com indiferença e justificativas fajustas. Quantos não pensam: ah! Deve ter mais aí, ele devia ser envolvido com drogas ou algo assim. Quantas mortes não são justificadas porque os mortos são considerados bandidos, traficantes. Traficantes que vendem o q? Drogas! Para quem? Para a classe média e alta do país poder viajar e fugir de suas dores internas e seus conflitos existenciais. Quando vamos parar com a hipocrisia e vê: só há tráfico porque há consumo!!
Mas, por que estou falando disso?! Esses dois jovens não tinham nada a ver com isso. Eram melhores do que eu e do que muitos que me lêem. Viveram o pior da vida e ainda eram “pessoas de bem”. A questão é: não importa. Não importa quem eles eram. Eram jovens que não vão chegar a crise dos 30, refletir sobre ela ou ser-lhes indiferentes. Eram jovens que tinham sonhos e lutavam como milhares de outros. Estejam trabalhando para o tráfico ou lutando pela vida honestamente são vidas ceifadas diariamente pelo Estado ou com a conivência dele. Com nossa conivência e nosso silêncio.
Para mim, fazer 30 anos também tem a ver com ficar puta com essa merda de mundo que a gente vive. Quando eu tinha 15, achava que podia mudar o mundo. Torná-lo um lugar melhor. Tendo a pensar que continuo tentando, embora seja aquele trabalhinho de beija-flor no incêndio da floresta. Ainda faço pouco, me questiono se posso fazer mais. Já presenciei tanta dor. Quantas pude ou me dispus a aplacar?
Fazer 30 anos tem a ver com querer que os próximos 30 sejam melhores. Fazer 30 anos tem a ver com querer ter filhos. Fazer 30 anos tem a ver com querer que meus filhos/minhas filhas (q virão uma dia!) possam viver num mundo onde possam ter amigos/as (ou serem eles próprios!) brancos, negros, índios, pobres, ricos, gays, héteros, magros, gordos, bonitos, feios, gente diferente, diversa, feliz... Pessoas com crises, dores e amores. Todas questões superáveis, pois poderão viver até a velhice, rir das próprias dores passadas e dos sonhos vividos. Esquecidos?! Jamais!!
http://jc3.uol.com.br/blogs/blogjamildo/canais/noticias/2010/02/08/recife_envergonhado_63551.php
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