É fato que depois dos vinte há inevitavelmente uma bagagem que se carrega. Grande ou pequena. Boa ou ruim. Confesso que meus vinte anos estão terminando e levando consigo quase toda a minha visão cor de rosa do mundo. Eu sinto falta do rosa. Mas ele ficou lá quando aos vinte anos eu perdi meu pai. Assim, de repente, em meio a uma tarde de sábado. Não sei se é possível depois de algo assim voltar a confiar que as coisas continuarão como estão se você piscar os olhos. Eu vinha de um conto de fadas e minha família seguia à risca o manual das famílias perfeitas. E eu sinto saudades. Do meu pai que eu conheci e de tudo o que não vivemos. Mais do que isso, eu sinto saudades de quem eu era naquela época, tão certa do que eu queria e absolutamente convencida de que o futuro era uma linha reta em direção ao meu objetivo. Depois, perdi um grande amor, mudei para longe de todo mundo que eu conhecia, perdi prazos, refiz o mestrado. Fiquei cética e percebo que estou cada vez mais impaciente e mal educada. Detesto quando dizem que é preciso aproveitar a vida e pensam em sol, beijo na boca e risadas intermitentes. A certeza da fugacidade da vida não me deu um desespero incontrolável por oxigênio. Eu passei os últimos anos rejeitando veementemente o supérfluo como se eu não entendesse porque as pessoas perdem tempo com o que não é profundo, verdadeiro e visceral. Aos poucos, porém, vou aceitando que as amenidades fazem parte da vida. Aceito que tudo mudou, que o rosa se foi, que o meu pai se foi e agradeço por ele ter sido um ser humano excepcional que tocou a vida de muita gente. Aceito que a minha família mudou. Aceito que eu cresci. Aprendo que aproveitar a vida para mim significa continuar fazendo o que eu acredito, seguindo esse meu futuro de linhas tortas. Gosto da ideia que boa madeira não cresce com o sossego.
"A vida far-nos-á seguir caminhos diversos. Contudo, constituímos alguns laços. Terminaram os anos infantis, irresponsáveis. Contudo, forjamos algumas ligações. Acima de tudo, herdamos tradições. Marcos de pedra estão aqui há seiscentos anos. Nestas paredes encontram-se inscritos nomes de militares, estadistas, até mesmo de alguns poetas infelizes (o meu estará entre os deles). Deus abençoe as tradições, todos os limites destinados a nos salvaguardar! Estou deveras grato a todos vós, homens de capas negras, e também a vós, já mortos, por nos terem guiado; contudo, ao fim, ao cabo, o problema permanece. As diferenças ainda não foram resolvidas. As flores continuam a espreitar pelas janelas. Vejo aves selvagens, e no meu coração agitam-se impulsos ainda mais selvagens que os pássaros. Os meus olhos têm uma expressão desvairada; aperto os lábios com força. A ave voa; a flor dança; mas nunca deixo de escutar o bater monótono das ondas; e a fera acorrentada continua a bater as patas lá na praia. Não pára de bater. Bate e vai batendo." (Virginia Woolf - As Ondas).
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4 comentários:
Isso de só se interessar pelo que é profundo, visceral. Entendo. Tenho aprendido com uma amiga, por outro lado, que a parcimônia pode ser uma boa opção, especialmente quando a gente considera essas reviravoltas insanas e as peças que a vida prega de vez em quando.
A verdade não sei qual é. A gente vai trilhando uns caminhos e esperando ter sorte, acho.
Às vezes não gostaria se saber tão de perto do q falas. Mas, sei. soube ainda na pré-adolescência o que é perder. Perder pessoas. Pessoas de vital importância.
Quando encaro o fim de um relacionamento, choro não só pelo fim. Mas, pq odeio a perspectiva daquilo tudo vivido se tornar apenas memória. Não é preciso uma sessão de análise para identificar de onde vem esse meu sentir, né?
Por outro lado, sempre converso com Mafalda sobre como é ruim para caralho sofrer. Mas, como isso também nos torna mais fortes.
Sempre me senti um pouco mais madura do q as pessoas q viviam num comercial de margarina. Não q fosse melhor q elas. De modo algum.
Apenas já sabia q o mundo não era cor de rosa, então, venho tentando criar meus próprios arco-iris com (e para) um maior número de pessoas possíveis.
vamos juntas, né?
ahh como eu não disse antes: eu amei o texto!! Virginia Woolf é tudooo.
Posso estar viajando, mas achei essa música a cara do post:
Pão Doce
Adriana Calcanhotto
Não adianta mentir pra mim mesma
Ficar me enganando, tentando dizer
Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce
Porque por mais que eu queira esconder
A verdade é que eu adorava pão doce
Não podia passar sem pão doce
Bastava ver padaria, que logo eu ia, que logo eu ia
Comprar
Não adianta mentir pra mim mesma
Porque no fundo, porque no fundo eu sei muito bem
Que essa história toda de não comer açúcar
Que essa história toda de não comer pão branco
Que essa história toda de viver de mel e pão integral
Isso tudo só foi começar muito depois
Depois de um tempo em que eu era
Tão completamente ingênua
Tão sem força de vontade
Que as doces delicadezas
De qualquer guloseima
Lânguidas me seduziam
E minha língua sofria
De incontrolável fascínio
Por cremes dourados
E frutas cristalizadas
Feito rubis incrustadas
Nas crostas crocantes dos pães
Mas hoje
Hoje tudo é diferente
Se eu olho pruma padaria, me ponho cismando, chego a duvidar
Como é que pôde um dia
Eu ter entrado tanto lá!...
Porque por mais que eu queira, mas que eu queira
Mentir pra mim mesma
Ficar me enganando, tentando dizer
Que nunca na vida, nunca na vida eu gostei de pão doce
Fazendo um exame detido, sendo sincera, eu tenho que admitir
Que a verdade, meus amigos
(pelo menos no que tange a trigos)
A verdade no duro, doa a quem doer
A verdade é que eu adorava pão doce
A verdade é que eu adorava pão doce
A verdade é que eu adorava pão doce...
profundo. visceral.
pena que eu ando muda. e não consigo dialogar com quase nada. mas mesmo no silêncio, adorei
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