sexta-feira, 19 de março de 2010

Contra-corrente

Luiz Gonzaga cantava uma música que marcou minha infância que dizia "Quem sai da terra natal, Em outro canto não pára..."
Menina, esperava o sol se pôr na véspera do São João para vestir minha roupa de caipira, pintar o rosto com minhas primas e esperar meus tios acenderem a fogueira na roça, para depois soltar fogos de São João a noite inteira ao som de Luiz Gonzaga principalmente.
Mal sabia eu o quanto aquela música marcaria minha vida. Saí da terra natal e morei e visitei lugares distantes. Não fui de pau-de-arara e a malota não era um saco, mas como muitos nordestinos antes de mim, migrei. Por razões diferentes: buscando me encontrar e para continuar crescendo profissionalmente.
Até que tive medo de que não fosse parar em canto algum. Depois de quase dez anos de que tinha viajado por primeira vez, não tinha móveis, nem endereço fixo por mais de um ano, nem certezas que ultrapassassem dois anos.
Bem, amar um carioca mudou tudo isso. Marido continua revolucionando minha vida intimamente todos os dias. Com o medo que eu tinha da estabilidade, minha vontade de permanecer tinha que ser com um subversivo do lugar-comum. Tudo em nossa história foge dos clichês.
Quanto a mim, o que mais me intriga é como vim parar onde estou. Filha de funcionários públicos do interior, nascida e criada na capital baiana, onde Direito ou Medicina são as escolhas comuns das boas meninas, sou o anti-produto do meu meio: fui viajar, aprender línguas, estudar feminismo, casar de sandálias havaianas...
É como dizem, "meninas boas vão pro céu, meninas más vão pra qualquer lugar..."
Quando se é migrante, seus laços com qualquer lugar são tão tênues que mudar nem sempre é a questão. Permanecer, tanto quanto mudar, é uma escolha. Essa escolha é ainda mais clara na vida de um migrante. Se estou aqui é porque quero e escolhi estar. Remei contra a corrente do que se esperava de mim, pra vir parar onde eu escolhi, como escolhi.

Nesse post tão emotivo, encerro com uma linda performance de arte. A música em questão na voz de Bethânia sempre maravilhosa.
Antes disso, transcrevo um trecho do filme Frida que acho lindíssimo: o brinde da amiga de Frida e Diego no dia de seu casamento. Resume meu sentimento sobre o amor e o casamento por opção revolucionária.

"I don’t believe in marriage. No, I really don’t. Let me be clear about that.
I think at worst it’s a hostile political act, a way for small-minded men to keep women in the house and out of the way, wrapped up in the guise of tradition and conservative religious nonsense.
At best, it’s a happy delusion. These two people, who truly love each other and have no idea how truly miserable they are about to make each other.
But, when two people know that, and they decide with eyes wide open to face each other and get married anyway, then I don’t think it’s conservative or delusional. I think it’s radical and courageous…and very romantic.
To Diego and Frida."

1 comentários:

Audrey disse...

Nem consigo expressar o quanto compreendo.
Quase choro ao ler...

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