Todo mundo tem sempre uma opinião. Sempre. Uma opinião importante que merece ser contemplada, diga-se de passagem. Quer saber minha opinião sobre isso? Corra! Ou então escute atentamente, murmure palavras de concordância e depois esqueça. Cada pessoa é um universo particular. Algumas partes são bonitas, outras nem tanto. O fato é que cada um tenta lidar com suas dores e delícias da melhor forma possível - ou não! Eu costumava ter essa utopia infantil que os adultos seriam mais maduros para lidarem com suas próprias questões. Doce ilusão. Os adultos são aqueles que jogam a neurose no ventilador para valer. Respinga para todo lado, salve-se quem puder. Ao contrário do que me dizem, não sei se quero um namorado, mudar de cidade ou de apartamento. Não pensei direito em casamento ou em ter filhos. Minha rotina de acordar às cinco horas da manhã e chegar em casa à meia-noite tem me feito olhar para a realidade de um jeito brutal. Não há espaço para mais nada além do real. Hoje o meu maior propósito é encontrar caminho em meio a tudo isso. Mas é difícil ouvir minha própria voz em meio a tantos ruídos. Falta sintonia fina do meu rádio mental. Eu que sempre fui bem quieta, que falo pouco, ouço muito e observo demais. Sempre tem alguém querendo preencher os espaços vazios do meu formulário. Eu só procuro um espaço mais são e mais meu onde eu possa ser sem cobranças. Acho engraçado que isso seja interpretado como falta de obviedade ou mistério pelos outros, porque todo mundo tem que lidar também com sua própria concha - que existe mesmo nos mais comunicativos. Respire e inspire. Relaxe. Pense um pouco. Ouça a sua própria voz. Reflita sobre as suas próprias questões. Está lançada a campanha: pratique a autocontenção!
(...) A solução, concordo, não está na temperança. Nunca esteve nem vai estar. Sempre achei que os dois tipos mais fascinantes de pessoas são as putas e os santos, e ambos são inteiramente destemperados, certo? Não há que abster-se: há que comer desse banquete. Zézim, ninguém te ensinará os caminhos. Ninguém me ensinará os caminhos. Ninguém nunca me ensinou caminho nenhum, nem a você, suspeito. Avanço às cegas. Não há caminhos a serem ensinados, nem aprendidos. Na verdade, não há caminhos. E lembrei duns versos dum poeta peruano (será Vallejo? não estou certo): “Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace ai anda”.
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. (...)
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.(...)"
(Carta ao Zézim - Caio Fernando Abreu)
Mais: já pensei, sim, se Deus pifar. E pifará, pifará porque você diz ”Deus é minha última esperança". Zézim, eu te quero tanto, não me ache insuportavelmente pretensioso dizendo essas coisas, mas ocê parece cabeça-dura demais. Zézim, não há última esperança, a não ser a morte. Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. (...)
Você me pergunta: que que eu faço? Não faça, eu digo. Não faça nada, fazendo tUdo, acordando todo dia, passando café, arrumando a cama, dando uma volta na quadra, ouvindo um som, alimentando a Pobre. Você tá ansioso e isso é muito pouco religioso. Pasme: acho que você é muito pouco religioso. Mesmo. Você deixou de queimar fumo e foi procurar Deus. Que é isso? Tá substituindo a maconha por Jesusinho? Zézim, vou te falar um lugar-comum desprezível, agora, lá vai: você não vai encontrar caminho nenhum fora de você. E você sabe disso. O caminho é in, não off. Você não vai encontrá-lo em Deus nem na maconha, nem mudando para Nova York, nem.(...)"
(Carta ao Zézim - Caio Fernando Abreu)
2 comentários:
Putz! Se eu pudesse escolher na próxima encarnação eu queria ser artista. Como me impressiona o modo como os bons autores expressam poeticamente o q tem dentro da gente.
Amo Caio Fernando Abreu.
Parece q nossos escritores preferido são os mesmos, né?
Ainda escrevo um post só sobre Orlando, o livro mais feminista de todos os tempos!
Além disso, preciso falar (rsrsrs) q concordo com o post e acho q as pessoas já falam demais para não precisar se escutarem. Outros bebem, outros comem...
rrsrs
Particularmente, eu tenho o problema oposto. Eu me penso o tempo inteiro, me penso demais. Depois q comecei a terapia to pior ainda.
As vezes me acho insuportável.
Questionar o mundo e a si próprio é desafiador, mas pode ser desagradável aos/as outros/as, né? Tanto aos/as outros/as que não conseguem fazer o mesmo.Quando aos/as amigos/as que não suportam mais tanta ladainha.
Postar um comentário