quinta-feira, 22 de abril de 2010

Dilema do Prisioneiro ou Amor Livre?

Todo relacionamento tem pactos. Nos comprometemos a não revelar a ninguém as loucuras mais íntimas do outro, a guardar os segredos confessados, a não julgar ou ridicularizar as obssessões tolas, a não deixar outro alguém ter íntimo acesso a nosso corpo... Possessividade? Talvez. Afinal, já diria Raulzito: "se eu te amo e tu me amas, um amor a dois profana o amor de todos os mortais..." Sintomático que todos esses pactos envolvem o medo do acesso de terceiros aos segredos que, vividos somente a dois, dão uma sensação de pertencimento sem paralelos.
Nessa onda de ser cabeça aberta, fui testando os meus limites. E relacionamento aberto é uma daquelas fronteiras que não me dá curiosidade ou vontade de ultrapassar. Acho até interessante que pra algumas pessoas funcione tão bem (e elas tendem a afirmar que isso aumenta a intimidade). Pode ser caretice, mas a cumplicidade proveniente da exclusividade acordada me é muito cara e inegociável. Mas o que reverte o senso-comum aqui é que se trata de um pacto que inclui terceiros, mas que, como todo pacto, envolve acordos sobre limites. Me parece que o casal em questão tenta assegurar que esse "exercício de liberdade física" não implique na perda da cumplicidade da qual só os dois são partidários. A exclusividade física deixa de existir, mas o elo emocional exclusivo se mantém presente. Ou até que se quebre, o que pode acontecer com ou sem relacionamento aberto.
Acho que aqui reside o problema. Os pactos de relacionamento são delicados porque envolvem a necessidade de confiança no compromisso do outro, seja qual seja o formato. O preconceito com o formato relacionamento aberto vem da idéia de que esse compromisso é mais frouxo. No entanto, a propagada fidelidade física é tão constantemente quebrada por casais diversos...
No dilema do prisioneiro da teoria dos jogos é descrita a situação hipotética de que dois cúmplices de um crime são presos em celas separadas, sem a possibilidade de comunicação. Ambos recebem o benefício da "delação premiada": entregue seu comparsa e reduza sua pena. No entanto, há o entendimento de que se ambos delatam o outro, a pena será grande para ambos. Se um delata e o outro não, o que delatou se safa e o outro tem a pior pena possível. E se ambos negam a participação de ambos, ambos têm a menor pena. Quantos deixariam de delatar sob o risco de que o outro lhe entregue e assim receba pena máxima? É um equilíbrio delicado que exige muita confiança.
A entrega sincera ao amor implica em um nível de confiança no outro que é rara nos dias de hoje. A recompensa é, no entanto, não a pena mínima, mas a sensação plena de acolhimento que só a cumplicidade de um amor sincero pode alcançar. Isso é o que chamo de amor livre. O resto é resto.

Para refletir, duas passagens do filme Frida. Na primeira, Frida descobre que Diego tem um caso com sua irmã. Apesar de saber das aventuras do marido, essa rompe de forma radical suas expectativas de lealdade. Na segunda passagem, Diego descobre que Frida teve um caso com Trotsky a quem tanto admira e sente uma dor que tem paralelos no sofrimento de Frida. Os diálogos são maravilhosos!




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