quarta-feira, 25 de agosto de 2010

As alquimistas estão chegando...

...estão chegando as alquimistas.
O primeiro livro que li em espanhol foi "Como água para chocolate" e além do prazer infinito que ouvir uma história ser contada em outra língua por primeira vez dá (experiência aperfeiçoada pelo advento García Marquez em minha vida), aquela história me tocou profundamente.
No entanto, nunca como agora nos quase-30, consigo me sentir tão ligada à história de quem expressa seus sentimentos e causa sentimentos através do preparo dos alimentos.
Do ponto de vista de uma feminista que estuda o trabalho das mulheres e suas implicações na opressão de gênero, o preparo dos alimentos é uma das atividades frequentemente citada na lista dos trabalhos majoritariamente exercido pelas mulheres e de forma negligenciada pela economia por acontecer fora do "mercado". Mas a vida econômica e social está muito além do que o mercado abarca. A preparação dos alimentos produz valor de uso que as famílias e comunidades usufruem e precisam. É mais uma dimensão do "cuidado", esfera da vida que é central pra nossa sobrevivência e bem-estar, e onde as mulheres são protagonistas (e talvez por isso mesmo tão depreciada, porque nenhum terreno tradicionalmente feminino pode ser valorizado sem empoderar-nos... e empoderamento das mulheres é aterrorizante pra quem oprime).
Quando digo que sou feminista, muitos ficam surpresos e me perguntam o que isso significa pra mim. Como feminista luto pra que os papéis sociais que são tradicionalmente femininos, especialmente os do cuidado, alcancem o status social que lhes cabe pela centralidade que têm na nossa vida. Luto também para que as mulheres possam transitar com facilidade nos espaços e papéis tradicionalmente masculinos (como a política), porque são dimensões da vida social que cabem às mulheres tanto quanto aos homens. Luto também para que os homens desempenhem tanto quanto as mulheres as atividades tradicionalmente femininas, como as do cuidado, para que as mulheres possam de fato ter tempo para estar nos espaços masculinos sem que isso implique uma jornada múltipla de trabalho.
Mas tem um aspecto dessa luta com a qual sempre tive (e acredito que a maioria das feministas também) dificuldade: valorizar os papéis tradicionalmente femininos significa valorizar quem os desempenha prioritariamente, ou seja, entender que algumas pessoas (sem distinção de gênero, ainda que geralmente são as mulheres) podem querer ser mães/pais em tempo integral, cuidar da casa, cozinhar pra família... entender que essa é uma escolha legítima e linda.
Sempre tive dificuldade de entender como algumas de minhas amigas brilhantes e muito cultas decidiram não ter uma carreira e ser mãe a toda hora, antes dos 30 inclusive. Um misto de incompreensão e pena, como se elas estivessem oprimidas pelo machismo dos maridos. Admito minha prepotência, mas era difícil afastar esse sentimento.
Recentemente, me encontrei envolvida profundamente no cuidado de quem amo e descobri o prazer imenso dessa experiência, apesar de é claro ser confuso. Descobri que absolutamente amo cozinhar e me sinto parte de uma comunidade restrita de pessoas que cozinham por vontade e prazer. Adoro ir dormir pensando no que tenho na geladeira e como na manhã seguinte vou me tornar alquimista no preparo de algo saboroso. Adoro ir na feira com sacola grande, escolher algo novo como couve de bruxelas e descobrir como vou cozinhar isso... na alquimia da cozinha, me sinto parte de uma sociedade secreta, dos que amam e exercem essa arte.
Temperar, inovar, alimentar quem amamos, ouvir huuuuummmm... que delícia! Me sinto meio bruxinha, fazendo feitiço na minha panela, alquimista de sabores.


Um dos efeitos culinários que mais gosto da história de "Como água para chocolate" em sua versão cinematográfica:


1 comentários:

Lua Adversa disse...

Tenho uma professora que sempre diz que há algo de bruxaria no cozinhar, principalmente sopas, ficamos lá com um enorme caldeirão acrescentando os mais diversos ingredientes para uma espécie de poção mágica e como a bruxaria é um aspecto singular na história de formação da feminilidade e também na historia de opressão sofrida pelas mulheres, álias, essas duas histórias não se separam, pois ser mulher é ser oprimida e a possibilidade de não sofrer essa opressão passa sempre por sua superação; a opressão faz parte de nossa história. O inegável prazer que nós, mulheres, podemos sentir com as tarefas historicamente delegadas ao feminino é também, acredito eu, um caminho para conhecermos o que queremos e o que somos e, principalmente, o que vamos fazer e como vamos lutar pela igualdade na diversidade. Nesse momento sinto o cheiro da comida que acabo de colocar no fogo, a poção está tomando corpo...

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