terça-feira, 30 de novembro de 2010

La columna rota


Uma semana depois da fatídica previsão de uma astróloga de que tinha que ter cuidado com meu "eixo de sustentação corporal", quase como uma profecia auto-realizante fico com um torcicolo absurdo.
Um ortopedista incompetente (aparente pleonasmo...) me recomenda o uso de um colar ortopédico, "inclusive ao dormir".
Depois de passear por aí me sentindo mais próxima do que nunca da Frida Kahlo, cheia de dores e meio patética, ouço de uma amiga com quem fui almoçar no domingo que torcicolos severos "são aparentemente um mal de mulheres nos quase-30".
Ah, Saturno, Saturno, soturno, me persegues até na anatomia? Já não bastam os prenúncios de rugas, o medo da flacidez afastado com o vício do pilates, os fios de cabelos brancos que me recuso a tingir?
Cheia dos conselhos e da aparente lucidez de todos os seres humanos, vou num osteopata holístico [risos em suspenso pela dor] que me diz: "2011 será um ano intenso pra você e precisamos limpar seu fígado". Fico com aquela cara interrogativa (ou seria a dor?) e ele me diz "tenho intuição". Ok, ok, aparentemente dos planetas do sistema solar a toda sorte de indivíduos, todos parecem saber algo mais sobre meu futuro que eu mesma poderia antecipar. Resolvo respirar fundo e relaxar. Ele estala minha coluna e pescoço, me enche de agulhas de acunpuntura e choques. Há de se desestruturar a anatomia pra se reconstruir então? Me pergunto... decidida a recusar conselhos que não venham da minha alma ou corpo. Os alheios só me causavam confusão mental e anatômica.
Chegando em casa, reencontro formas mais profundas de ouvir meu corpo e alma. Em todas as posições. Amém.

Fodam-se os conselhos e juízos alheios, hoje vou de Shakira que antes de ser platinada era uma letrista de talento:
"se me acaba el argumento
y la metodología
cada vez que se aparece frente a mí
tu anatomía"






quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O TEMPO I: "Batidas na porta da frente: é o tempo...

...eu bebo um pouquinho pra ter o argumento."

Quando tinha 19 anos, escrevi uma carta pra mim mesma pra ler cinco anos depois. Claro que antes dos 24 acabei relendo. E reli muitas vezes desde então.
Na carta "relembro" a mim mesma meus sonhos de juventude pro caso de ter esquecido. Falava de tudo que ainda queria fazer, lugares a visitar, línguas que queria aprender, o que achava importante pra me realizar... dez anos depois me impressiona a lucidez de algumas coisas. E a ingenuidade de outras.
De alguma forma, havia um medo aparente de que com o passar do tempo eu endurecesse, me burocratizasse, deixasse de lado o que me dá sentido em prol de confortos banais, me tornasse talvez o protótipo de "adulta" que minha mãe desejava: social e financeiramente responsável, que tem filhos, paga impostos e trabalha 40 horas ou mais por semana. Verdade seja dita, pago meus impostos religiosamente e não devo um centavo a banco algum. Mas aos 21 anos tinha juntado uma grana trabalhando feito uma louca nos EUA e torrei tudo durante 1 ano na Europa aos 22... Até o momento, não consegui uma poupança equivalente, mas não há um sopro sequer de arrependimento nessa lembrança. Confesso que vivi, já diria Neruda.
O que aquela carta já antevia lucidamente é que o problema não está no que um dia nos orgulharemos, mas o que nos traz arrependimento, culpa, frustração... e aos quase-30 anos, todos temos os nosso fantasmas pra encarar. E às vezes são bem feios. E insistentes.
Acho que eu-aos-19 anos queria assegurar que eu-aos-24 anos, tivesse compromisso com meus sonhos de juventude, ficasse alerta pra necessidade de driblar o TEMPO e suas constantes armadilhas, como a rotina, o esquecimento, a estabilidade... como extremista que sou quando abraço uma filosofia de vida, dei adeus a amores como quem se desfaz de uma roupa incômoda, fiz o possível pra negar minha educação jesuíta de boa moça baiana, como uma mariposa aprendi a arte da mimetização, aprendendo e abandonando sotaques de acordo com a necessidade...
Nesse processo, passei por cima de muitos fantasmas que agora batem à porta. Aos quase-30 anos, estou aprendendo que não posso ser tudo que eu-aos-19-anos queria. Ainda bem. Em dez anos, aprendi um pouquinho mais sobre o mundo e quero algumas coisas diferentes pra mim mesma. Mas ainda tenho que fazer as pazes com eu-aos-19-anos, eu-aos-20-anos, eu-aos...
E pra isso, ando recuperando projetos há muito guardados...

Pra lidar com fantasmas, nada melhor que a arte (Resposta ao tempo):
"Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver"