...eu bebo um pouquinho pra ter o argumento."
Quando tinha 19 anos, escrevi uma carta pra mim mesma pra ler cinco anos depois. Claro que antes dos 24 acabei relendo. E reli muitas vezes desde então.
Na carta "relembro" a mim mesma meus sonhos de juventude pro caso de ter esquecido. Falava de tudo que ainda queria fazer, lugares a visitar, línguas que queria aprender, o que achava importante pra me realizar... dez anos depois me impressiona a lucidez de algumas coisas. E a ingenuidade de outras.
De alguma forma, havia um medo aparente de que com o passar do tempo eu endurecesse, me burocratizasse, deixasse de lado o que me dá sentido em prol de confortos banais, me tornasse talvez o protótipo de "adulta" que minha mãe desejava: social e financeiramente responsável, que tem filhos, paga impostos e trabalha 40 horas ou mais por semana. Verdade seja dita, pago meus impostos religiosamente e não devo um centavo a banco algum. Mas aos 21 anos tinha juntado uma grana trabalhando feito uma louca nos EUA e torrei tudo durante 1 ano na Europa aos 22... Até o momento, não consegui uma poupança equivalente, mas não há um sopro sequer de arrependimento nessa lembrança. Confesso que vivi, já diria Neruda.
O que aquela carta já antevia lucidamente é que o problema não está no que um dia nos orgulharemos, mas o que nos traz arrependimento, culpa, frustração... e aos quase-30 anos, todos temos os nosso fantasmas pra encarar. E às vezes são bem feios. E insistentes.
Acho que eu-aos-19 anos queria assegurar que eu-aos-24 anos, tivesse compromisso com meus sonhos de juventude, ficasse alerta pra necessidade de driblar o TEMPO e suas constantes armadilhas, como a rotina, o esquecimento, a estabilidade... como extremista que sou quando abraço uma filosofia de vida, dei adeus a amores como quem se desfaz de uma roupa incômoda, fiz o possível pra negar minha educação jesuíta de boa moça baiana, como uma mariposa aprendi a arte da mimetização, aprendendo e abandonando sotaques de acordo com a necessidade...
Nesse processo, passei por cima de muitos fantasmas que agora batem à porta. Aos quase-30 anos, estou aprendendo que não posso ser tudo que eu-aos-19-anos queria. Ainda bem. Em dez anos, aprendi um pouquinho mais sobre o mundo e quero algumas coisas diferentes pra mim mesma. Mas ainda tenho que fazer as pazes com eu-aos-19-anos, eu-aos-20-anos, eu-aos...
E pra isso, ando recuperando projetos há muito guardados...
Pra lidar com fantasmas, nada melhor que a arte (Resposta ao tempo):
"Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto
E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver"
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