quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Brilho eterno?

No rol das frustrações dos quase-30, sem dúvida a "vida sentimental" figura luminosa no imaginário de mulheres (e homens) recebendo a visita de Saturno. Da frustração de não ter ninguém em vista e se sentir só, às frustrações de um relacionamento a dois, passando pela dor de já ter passado por um casamento frustrado... frustrações abundam quando se QUER amar. Durante muito tempo, acreditei que "bem melhor seria poder viver em paz, sem ter que sofrer, sem ter que chorar, sem ter que querer, sem ter que se dar". Até me apaixonar e resolver viver esse sentimento tão inebriante, que colore tudo mais de novos e inesperados sentidos.
Viver a dois exige acordos que se fazem na mesma língua, há de se entender o que se expressa, comunicação de vontades, chateações, limites. O problema é que às vezes nos sentimos como "Baudolino", falando várias línguas ao mesmo tempo e não sendo compreendidos em nenhuma delas. Diálogos se tornam constantes DRs, o ronco que a princípio era bonitinho não te deixa dormir, expectativas a respeito do comportamento do outro oprimem o cotidiano natural... em alguns momentos, você se sente mais compreendido por desconhecidos do que pelo interlocutor prioritário, com quem tanta intimidade foi construída.
Às vezes a fronteira que protege a intimidade de um casal e o que é só dos dois se torna fina e frágil membrana e até sufoca, te faz sentir saudade de si mesmo, torna escuro o ambiente em que conseguimos "ver" o outro.
Não tem idade pra viver isso, amor ou frustração. Mas, sim, aos quase-30 nossas expectativas de realizar algo nesse espaço parecem intensificadas com lente de aumento. E nós parecemos tão incapazes de fugir e também de enfrentar tão grande tarefa.

Um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" fala tão lindamente da vontade de estar junto, da dificuldade de sustentar a convivência, da insistência em tentar apesar de tudo, mesmo quando se tenta esquecer:


quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Mundo grande transpõe conjunção astral

O que meu ascendente em Aquário faz por meu sol em Escorpião é me dar uma aparência de superfície fria e tranqüila encobrindo uma alma de profundos redemoinhos e mar quente e revolto.
Desconheço outra pessoa que cruzou o espaço entre duas temperaturas tão diversas em tão curto espaço de tempo como marido na noite em que nos conhecemos. Com habilidade rompeu fronteiras bem construídas e cultivadas e causou fascínio em uma alma solitária e de discurso cínico. Acolhimento inesperado e desejo intenso fez de um desconhecido o interlocutor prioritário e o corpo imprescindível. Absolutamente.
Tenho me perguntado porque apesar de uma conjunção astrológica tão favorável ao mistério, tenho tido tanto prazer em me despir publicamente. O amor e análise começaram a abrir fendas em minhas fronteiras antes bem guardadas. E algumas dores começaram a mostrar suas feias faces.
Tal como Drummond, preciso de todos para suportá-las.

"Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso freqüento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos."



segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Tempo II: Mas eu sou tão moça pra tanta tristeza...

Na "fuga" dos fantasmas do passado que me batem à porta nos quase-30, dei de cara com alguns que me deixaram numa tristeza profunda. Fui na festa de 30 anos ironicamente de um amigo da época de faculdade e encontrei amigos de mais de 10 anos atrás. Me senti, como na canção de Violeta Parra, que tinha voltado aos 17 depois de viver um século. Tão distante daquelas pessoas e daquele modo de vida. Tão enojada com os comentários reacionários que um deles insistia em fazer.
Foram 3 horas de tortura que só muita cerveja me fez tolerar anestesiada. E pior: me levaram a reencontrar o fantasma da ruptura que fiz em minha vida. Ao chegar em casa, redescubro que "solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes", me agarro ao corpo do meu companheiro buscando desesperadamente refugio dos fantasmas. Ele busca me acolher me mostrando que ao invés de culpa, deveria ter orgulho de ter ido contra-corrente e rompido com o que era esperado de mim.
Talvez o que mais tenha doído foi me perceber mais do que nunca como outsider em um mundo que tem aquilo como regra e o que eu acredito como filosofia de vida como absolutamente marginal. Apesar de ter rompido tão cedo com aquilo, por muito tempo ainda busquei tolamente conviver com aqueles fantasmas por obrigação social, alguma compaixão à alienação de suas pseudo-felicidades, como se pudesse resgatá-los. E como doía sentir que não há nada a fazer agora, talvez essa insistência demasiado ingênua só machucou ainda mais minha crença no ser humano. Talvez seja o momento de deixar de reconhecer esses fantasmas como meus, virar as costas e numa ruptura freudiana "matá-los" e numa ruptura estrutural reconhecer que estamos de lados opostos na trincheira mesmo. Passar de frustração e raiva a propósito pode fazer sentido.
No caminho de vencer os fantasmas do passado, às vezes a reconciliação com eu-aos-17 pode se dar pelo reconhecimento de que o espaço dessa batalha não é mais exclusivamente psíquico-pessoal, mas ideológico.

Em momentos intermináveis de tristeza pelo reconhecimento dessa ruptura e tentativa de reescrever minha memória sem odiá-la ou me afundar na frustração, busquei numa música que tanto fez parte da minha história, um pouco de significado.
Como no poema "Canteiros" de Cecília Meireles musicado por Fagner:
Eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

E dessa por livre associação, cheguei à belíssima canção de Violeta Parra "Volver a los 17", que tem assustadoramente e libertadoramente a ver com este momento:
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como decifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Para deleite: