segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O Tempo II: Mas eu sou tão moça pra tanta tristeza...

Na "fuga" dos fantasmas do passado que me batem à porta nos quase-30, dei de cara com alguns que me deixaram numa tristeza profunda. Fui na festa de 30 anos ironicamente de um amigo da época de faculdade e encontrei amigos de mais de 10 anos atrás. Me senti, como na canção de Violeta Parra, que tinha voltado aos 17 depois de viver um século. Tão distante daquelas pessoas e daquele modo de vida. Tão enojada com os comentários reacionários que um deles insistia em fazer.
Foram 3 horas de tortura que só muita cerveja me fez tolerar anestesiada. E pior: me levaram a reencontrar o fantasma da ruptura que fiz em minha vida. Ao chegar em casa, redescubro que "solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes", me agarro ao corpo do meu companheiro buscando desesperadamente refugio dos fantasmas. Ele busca me acolher me mostrando que ao invés de culpa, deveria ter orgulho de ter ido contra-corrente e rompido com o que era esperado de mim.
Talvez o que mais tenha doído foi me perceber mais do que nunca como outsider em um mundo que tem aquilo como regra e o que eu acredito como filosofia de vida como absolutamente marginal. Apesar de ter rompido tão cedo com aquilo, por muito tempo ainda busquei tolamente conviver com aqueles fantasmas por obrigação social, alguma compaixão à alienação de suas pseudo-felicidades, como se pudesse resgatá-los. E como doía sentir que não há nada a fazer agora, talvez essa insistência demasiado ingênua só machucou ainda mais minha crença no ser humano. Talvez seja o momento de deixar de reconhecer esses fantasmas como meus, virar as costas e numa ruptura freudiana "matá-los" e numa ruptura estrutural reconhecer que estamos de lados opostos na trincheira mesmo. Passar de frustração e raiva a propósito pode fazer sentido.
No caminho de vencer os fantasmas do passado, às vezes a reconciliação com eu-aos-17 pode se dar pelo reconhecimento de que o espaço dessa batalha não é mais exclusivamente psíquico-pessoal, mas ideológico.

Em momentos intermináveis de tristeza pelo reconhecimento dessa ruptura e tentativa de reescrever minha memória sem odiá-la ou me afundar na frustração, busquei numa música que tanto fez parte da minha história, um pouco de significado.
Como no poema "Canteiros" de Cecília Meireles musicado por Fagner:
Eu ainda sou bem moço pra tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida
Senão chega a morte
Ou coisa parecida
E nos arrasta moço
Sem ter visto a vida

E dessa por livre associação, cheguei à belíssima canção de Violeta Parra "Volver a los 17", que tem assustadoramente e libertadoramente a ver com este momento:
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como decifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a Dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Para deleite:





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