quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Escolhi viver, ainda que todavia tropece muito...

Parece que assim como as lágrimas lavam a alma da tristeza que transborda, os fios de cabelo branco aparecem sorrateiramente como marcas visíveis das dores, para não as esquecermos nunca. Quando um mês depois de casarmos meu companheiro teve uma piora de diagnóstico, ganhei incontáveis fios de cabelos brancos em alguns meses. Agora, após sua partida, me imagino envelhecendo cinco anos em um... Não os pinto, pois não nego o peso das dores que os trouxeram. Ao contrário, quero me olhar no espelho e, mesmo vendo as marcas explícitas das fraturas expostas da alma, saber que de algum lugar desconhecido brotou a força que me mantém de pé.
Ainda me arrasto e sigo lavando a alma com lágrimas, mas um dia dançarei com paixão pela vida e lavarei a alma com menos frequência, porque não estou me furtando agora da enxurrada que leva, junto com as lágrimas que correm, os destroços de todos os caminhos do meu coração devassado. Que venham os cabelos brancos das dores vividas com entrega, assim como foi a entrega ao amor que as trouxeram!
Escolho viver.

sábado, 27 de agosto de 2011

Evaporar

Um mês de infinitas saudades que não cabem em um coração despedaçado. Transbordo.
Quantas vezes parti pra percorrer o mundo depois de nossas despedidas tão doídas e chorosas? Tão incomensurável a dor de não ter me despedido antes da sua partida.
E mesmo com despedidas, sempre tínhamos os longos telefonemas madrugais apaixonados e a certeza do reencontro, momento mágico, sempre cercado de flores e música, tal o carinho com que me recebias. Como posso falar contigo agora? Onde encontro seu colo?
Nada nunca deu tanto sentido à minha existência como nosso amor.
Nada nunca me fez sofrer tanto como sua ausência.
Sinto sua falta. Absolutamente.
Nosso ninho vazio sem sua voz cheia, seu escutar atento, suas palavras certeiras, suas brincadeiras e risos, seu dengo, pedindo cafuné e abraços.
Se você existe em algum lugar, gosto de te imaginar sorrindo e se sabendo amado.
Que assim seja.

"Como se morrer fosse desaguar
Derramar no céu, se purificar
Deixar pra trás sais e minerais
Evaporar"


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tudo que é sólido se desmancha no ar (?)

Como é possível dedicar esforço e cuidado para cultivar flores por tanto tempo e encontrar de um momento para o outro um campo árido e sem vida? Como é possível desejar tanto o corpo de um homem e seguir vivendo mesmo depois de vê-lo inerte num caixão?
Parece ser o fim da esperança na vida, o epíteto da morte trágica e repentina que não deixa recados, desculpas ou despedidas concretas. Só a sensação de porta fechada a cal, sem comunicação possível. Para SEMPRE. Que dor sem fundo é lidar com o nunca mais, com o não irredutível, com a impossibilidade atroz. Me arrasto como um zumbi, autômato do fazer cotidiano. Lavar pratos, dormir e acordar, checar e-mails, buscar apartamento, falar milhões de vezes sobre um ato e tudo que levou a ele e tudo que ele acarretou. Para quê? Se nunca vou entender nada de fato, nunca vou poder voltar atrás e refazer, nunca vou poder saber o último pensamento daquele que tanto amei. Terá sido de libertação e alívio? Terá sido de desespero e vontade de ficar? Terá se sabido amado? Terá seguido me amando?
Por que não se desmancham no ar as coisas feias e duras? O desamor, o sofrimento, as dores do corpo, a exploração de tantos por alguns... Por que ao contrário se desmancha o belo e mágico, o amor construído com tanta entrega?
Eu que sempre tive tantas certezas, sou um poço de dúvidas.
Flutuando em mar aberto, à deriva, minha alma desconectada da vida que segue, tormenta por dentro, buscando desesperadamente momentinhos de fé que me permitam seguir em frente com algum reflexo de sentido. Que falta me fazem as palavras de consolo que ele como ninguém sabia dizer, a parte de seu corpo onde eu repousava minha cabeça em busca de acolhimento e que já tínhamos acordado ser o meu "ninho no ninho", nossa casa.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Tempo III: tempo circular na revolução do amor

Mesmo que saibamos racionalmente que somos uma gota no oceano do universo ou da História, em dado momento, uma pessoa pode ser o centro de nosso universo e o encontro de duas pessoas pode ser o ponto de inflexão de toda História. Danem-se as galáxias, o Big Bang, as grandes civilizações. Tudo o que foi/fui antes e tudo que virá/virei a ser emana do nosso encontro, como ondas que reverberam em todas as direções a partir dali. Momento definidor, inflexão revolucionária do tempo. Meu passado foi reescrito à luz desse encontro. Quem poderei ser depois é resultado disso. O mundo já não tem mais as mesmas cores, formas ou sabores. Tudo mudou diante da explosão no centro do meu universo. O meu Deus das Pequenas Coisas, grandiosa presença agora silenciosa, grita em minha alma.
Dizem que voltarei a sorrir genuinamente. Não me parece possível que todos estejam equivocados. É nisso que me agarro.

A insustentável leveza do ser

Ao que parece algumas pessoas conseguem viver a vida com festiva leveza, de carnaval em carnaval, sem tantas crises. Talvez lhes ajude o álcool, o rivotril, o consumo de toda sorte de inutilidades ou a cegueira existencial.
Encarar a vida de frente e ver a olhos nus suas contradições dilacera a alma de tal forma que pode ser difícil seguir caminhando com tantos cacos por reconstruir. O que vai sair dessa reconstrução pode apenas aparentar semelhanças com o que a alma foi um dia. Inocência devassada, será possível qualquer leveza sem estar dopado?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A fé é o instinto da ação

Desde que a morte mostrou sua feia face em minha vida, a existência para além da matéria se tornou um pensamento recorrente. Em quinze dias, recebi passes, li mensagem psicografada, fui em culto batista e comunguei em missa de sétimo dia, em busca da certeza que parece ser tão natural para outros: a de que em algum lugar para além de mim mesma aquela pessoa que amei tanto continua existindo, continua querendo, continua pensando. Como invejo os que têm fé.
Durante dois anos a frase "A fé é o instinto da ação" esteve colada na porta da nossa casa. Em nossas alianças, marido gravou "Comum união". Nos últimos meses, rezamos de mãos dadas todas as noites antes de dormir. Ele sempre buscou essa fé de todas as maneiras e o amor era nossa devoção. Fé, palavrinha tão pequena, com sentido tão incomensurável. Como desejaria agora simplesmente crer. Se não tenho seu colo como consolo, que ao menos soubesse que ele existe e que está sem dores, livre, em paz e que não me deteste.
No momento, sinto como se depois de dois anos e meio sendo meu interlocutor prioritário, ele desligasse na minha cara e sumisse sem deixar rastros para todo o sempre. Sem poder dialogar, me resta construir sozinha minha narrativa dessa história que era de dois e aceitar sem maniqueísmo que ele não é mártir, coitado ou traidor, mas um homem imenso na beleza de sua alma, mas também em suas dores e contradições.
Quando alguém morre dessa forma, por escolha (ou falta de escolha?), os que ficam também escolhem em contrapartida. Escolhi viver. E pra isso preciso me reencantar com o mundo e com as pessoas que hoje parecem tão sem graça, sem o brilho que só a memória dele parece ter agora. Se não consigo ter fé no que há além, busco retomar a fé então na vida do aqui e agora, do que já foi e do que pode vir a ser. Tarefa árdua, mas necessária porque a vida prossegue e tenho que reaprender a viver.



sábado, 6 de agosto de 2011

A minha herança: uma flor

Não se sabe ao certo
O que se pode vir a ser
até que de fato seja
O que se é capaz de fazer
até que de fato faça
Quais são os próprios limites
até que se encare a impossibilidade
de salvar quem se ama
ou salvar a si mesmo.

No nosso primeiro Natal juntos, meu companheiro levou meu violão pra consertar. A primeira música que aprendi a tocar falava do acolhimento das dores e a salvação através de um amor incondicional, ilusão que compartilhamos tão visceralmente, que por mais que racionalmente eu repita que fiz o que pude, o coração não se convence e a alma destroçada tenta sobreviver no cotidiano que prossegue massacrante.

O fim das grandes narrativas?

Todo casal tem sua história, de como se conheceram, como se apaixonaram, como decidiram ficar juntos. E quando há sintonia, essa grande narrativa é tão compartilhada que duas pessoas se sentem parte de uma mesma história, em alguns momentos confundindo-se. Antes dos 30, tive o privilégio de viver uma história que muitos passarão uma vida inteira sem sequer tangenciar.
Uma história de amor deixa de ser bonita se seu fim é feio? Quero pensar que não, porque senão meu presente reescreveria meus últimos anos de forma tão profunda que não sei como encarar um futuro com essa bagagem. Sim, quase-30 e o meu grande amor frustrado, sofrimento sem palavras, buraco negro. Nisso meu companheiro tinha razão: é impossível fazer 30 sem amargura. Saturno se aproxima ainda mais, causando abalos sísmicos desestruturantes. Qual o meu lugar nesse mundo? Nômade que tinha fincado raízes, poderei permanecer sem fugir das dores?
Uma das coisas mais tristes do fim de uma história é que dois passam a ser dois de novo e esse rearranjo "matemático" causa estragos metafísicos e filosóficos, narrativas se multiplicam, culpados e culpas emergem, dores parecem não ter mais fim... e nessa torrente, que falta faz o acolhimento da grande narrativa da crença no amor e na possibilidade de vencer a confusão de quereres e histórias de vida. A grande narrativa pode ter sido substituída por versões da história, mas algumas versões se aproximam mais do real do que outras (sim, pois existe o real, outra lição aprendida com ele!) e o que me sustenta é a fé de que passada a tempestade, para além do que mareja os olhos e alma, reencontrarei a verdade e me reconciliarei com eu-aos 27, jovem mulher, amando loucamente e acreditando na eternidade.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Outras palavras

Há algum tempo não escrevo nesse blog. Já comecei e não terminei vários outros posts. Como se nenhum tema fosse realmente válido para estar aqui. Como se a vida já não fosse dramática ou cômica o suficiente em si mesma. A proximidade dos 30 - e a eventual "crise" que vem acompanhada dessa idade - foi o que motivou a existência desse espaço. Porém foi quase o mesmo momento que ouvi: "como seus textos são dramáticos! Que drama é esse?!" O comentário ficou comigo. Ficou porque houve um tempo que eu era um poço de dor ambulante. E carregava meu próprio inferno na cabeça egoisticamente só pra mim. Dor e neurose que se consumiam em si mesmas e fabricavam novas dores, só pra mim. Um tempo em que eu me sentia incapaz de agir no mundo sem deixar de escolher a dor que sempre me levava ao caminho do irrealizável. A dor, personagem de si mesma, buraco negro avassalador, totalmente viciante, inebriante. Os sentimentos ali, pungentes, doendo, sangrando - só pra mim, só pra mim. Um poço de águas profundas tão atraente, tão irresistível. Saltava ali todo dia no meu mergulho interior. E ali fiquei por muito tempo. Até o fatídico comentário sobre o meu drama. Que dor é essa que se alimenta de si mesma? De onde vem esse drama que não é vivido, mas imaginado e que inspira medo? A dor em paradoxo: medo de perder a dor, medo que ela aumentasse com as vicissitudes inevitáveis da vida. A dor é assim: pensamento tautológico e circular que não sai de si. Daí resolvi desprezar a dor e viver, abrir a porta do quarto, mudar de apartamento, mudar de ares. Sensualizei a vida nos meus sentidos. E a vida é dor, mas não a dor que é minha. Mas dor que se vive e se descobre no outro e na própria realidade. A dor do desejo, do amor. Vai e volta e quando chega em mim já é outra coisa. Essa dor, quase uma inquietação, me leva pra frente, me faz realizar. Foi essa dor que me deu palavras que não brotam só da minha cabeça. Não sei se consigo escrever com elas. Mas levanto todo dia e tento, tento, tento, tento. Tentarei. De novo.

Nada dessa cica de palavra triste em mim na boca
Travo, trava mãe e papai, alma buena, dicha louca
Neca desse sono de nunca jamais nem never more
Sim, dizer que sim pra Cilu, pra Dedé, pra Dadi e Dó
Crista do desejo o destino deslinda-se em beleza:
Outras palavras

Tudo seu azul, tudo céu, tudo azul e furta-cor
Tudo meu amor, tudo mel, tudo amor e ouro e sol
Na televisão, na palavra, no átimo, no chão
Quero essa mulher solamente pra mim, mais, muito mais
Rima, pra que faz tanto, mas tudo dor, amor e gozo:
Outras palavras

Nem vem que não tem, vem que tem coração, tamanho trem
Como na palavra, palavra, a palavra estou em mim
E fora de mim
Quando você parece que não dá
Você diz que diz em silêncio o que eu não desejo ouvir
Tem me feito muito infeliz mas agora minha filha:
Outras palavras

Quase João, Gil, Ben, muito bem mas barroco como eu
Cérebro, máquina, palavras, sentidos, corações
Hiperestesia, Buarque, voilá, tu sais de cor
Tinjo-me romântico mas sou vadio computador
Só que sofri tanto que grita porém daqui pra a frente:
Outras palavras

Parafins, gatins, alphaluz, sexonhei da guerrapaz
Ouraxé, palávoras, driz, okê, cris, espacial
Projeitinho, imanso, ciumortevida, vivavid
Lambetelho, frúturo, orgasmaravalha-me Logun
Homenina nel paraís de felicidadania:
Outras palavras

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Dividir o teto

Essa coisa de dividir o mesmo teto
É um delicado ato
Às vezes dá vontade de fugir pro mato
Sufocamos entre tanto concreto

Mesmo mantendo o coração aberto
Num dado momento insólito
Pode-se ficar farto
De ver o outro tão de perto

Se então perco o tato
E digo o que penso de forma torta
Talvez receba de volta um pito
Talvez sem perceber, feche uma porta

É vão buscar sentimento exato
Num poço de dor infinito
Talvez me encontre de assalto
Torpe, tola, tonta
Buscando acordos tácitos
Onde nada foi dito

terça-feira, 28 de junho de 2011

Lost in Translation

Vivo minha vida em fronteiras, não à toa o “internacional” sempre me intrigou. Uma certa sensação de não pertencimento sempre presente parecia solúvel em outro lugar, no que era desconhecido. Bastaram poucos anos de vida nômade para saber que solução não existia em lugar algum. E pior: a sensação de não pertencimento só aumentou à medida que novas fronteiras foram se traçando. Minha vida dividida em arenas inconciliáveis, com cosmovisões diversas, línguas diversas... e eu “lost in translation” no meio.
Talvez por isso a China me incomodou tanto a princípio. Nunca me senti tão incomunicável e incompreendida. E ao mesmo tempo, esse parecia o retrato de minha própria vida, difícil de encarar esse fato, duro desconforto. Aos poucos fui me sentindo mais à vontade, e de dores intraduzíveis passei à mimetização espontânea, não me sentindo um ET na multidão de olhinhos puxados. A vida nômade é um vício visceral. Cansa, estressa, dói, mas apaixona como poucas coisas.
O que te faz sobreviver na fronteira são as conexões que se cria no caminho. Tive uma dessas ao ouvir uma história. Duas horas depois de conhecer uma jovem de quase-30 assim como eu, apaixonada pelo companheiro como eu, inconformada como eu, a ouvi contar como sua vida mudou quando aos 21 anos ela descobriu que pessoas em quem ela acreditava e a quem dedicava sua militância eram parte de uma rede criminosa. De jovem com ideais ela passou ao cinismo absoluto, perdeu muitos sentidos e 10 anos depois vive uma vida diversa. Senti que ela queria acreditar em algo, mas o sistema tinha acabado com os sonhos. Assim como muit@s jovens de nossa geração de quase-30, sonhar parece-lhe coisa de tol@s. Isso me fez pensar em contra-factuais infinitos. E se isso não tivesse acontecido com ela? E se tantas coisas tivessem acontecido de forma diferente comigo?
Sigo no trabalho árduo de desatar os nós que me prendem, jogar fora as pedras que estão no meu bolso e me dificultam nadar em direção à superfície. Busco com afinco o sopro de ar que vai me desvencilhar deste engasgo. Estou nos quase-30 e não quero ser refém das minha dores.

"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"
Florbela Espanca


quarta-feira, 18 de maio de 2011

A ilusão do "momento alfa"

Como parte do processo doloroso de separar idealizações ilusórias de ideais necessários para seguir lutando nos quase-30, me deparei nos últimos dias com o mais belo de todos os ideais: o amor. E provavelmente, que pese todas as neuroses e vícios que sigo trabalhando na análise, este é o espaço que menos idealizo e mais me emociono com a beleza da realidade nua, crua e em fratura exposta. Como boa escorpiana, sempre gostei do intenso e forte. Sempre me atraiu uma verdade bem dita, as emoções extremas, a coragem de encarar qualquer coisa... ops, acho que acabei de descrever o homem que amo...
Ali, onde muitas, ainda que encantadas, possam ter medo da experiência verdadeira da fratura exposta, me embrenhei através da névoa espessa que cega qualquer visão, rumo ao desconhecido, ferido e intenso, o caldo que alimenta a alma, as palavras que intrigam o ser entediado pela vida comum e tosca...
Nada é mais belo que o desejo incomensurável de compartilhar intensamente com outro alguém, de ser companheiro na insegurança atroz, segurar na mão durante a passagem pelo escuro da alma que dói. Fazer isso pelo outro com cuidado e atenção, assegurando que a solidão de ser indivíduo não é solitária se temos companhia sincera, desejada e confirmada. Respirar fundo, sabendo que o outro está lá também pra nós quando for nossa vez. Ter consciência que cumplicidade assim é difícil de construir e sustentar. E poucos sequer sabem ou saberão do que se trata. Então há que se preservar e cuidar quando deparamos com (e reconhecemos!) o mágico na existência tão árida no mundo de hoje.
Quando me casei somente disse publicamente pros amigos queridos uma verdade íntima. Foi um momento lindo, mas nada próximo da experiência íntima e cotidiana de amar a dois. E pros muitos questionamentos alheios que não foram verbalizados, mas estavam presentes, formulei à época a teoria do "momento alfa".
A palavra "casamento" se traduz de duas formas em inglês: "wedding" é a festa onde dois passam a ser publicamente reconhecidos como casados, "marriage" é tudo que vem depois. Acho curioso que se diferencie em alguns idiomas e outros não. A sociedade - e sobretudo as mulheres e seus contos de fada de infância - fetichiza o "wedding" como um "momento alfa". Meses, e às vezes até anos, são gastos planejando até os mais mínimos detalhes, construindo um momento plastificado e sem espontaneidade, e até brega (tem quem goste, mas enfim). E o pior é que a idealização deste momento começa anos antes de sequer existir a possibilidade real do casamento, fazendo deste o reino propício para as frustrações que virão. A "perfeição" esperada para este momento faz com que mulheres busquem homens socialmente respeitáveis, com foco ampliado em dinheiro, trabalho, aparência, comportamento social e todo tipo de idiotice. Pouco importa se a vida sexual é patética, se o cara é egoísta, despolitizado e não sabe quem é Saramago. Pensar não conta. Pensar criticamente então é indesejável. Quem é desajustado nessa sociedade escrota tem problemas. E por aí vai.
O problema é o "marriage" ou tudo-que-vem-depois da festa de plástico. Às vezes se padece de tédio ou se busca diversão em outras partes, ou ainda há aqueles que descobrem desconcertados que depressão, alguma doença, "desajustes", problemas financeiros podem se abater sobre qualquer um. Inclusive com você ou seu companheiro.
Aí muita gente não sustenta a realidade. Claro que amor e vontade de ficar junto acaba. Mas muitas vezes acaba primeiro a idealização. Se tudo-que-vem-depois não refletir a plasticidade das fotos do "momento alfa" pode ser duro de aturar a realidade nua e crua e as fraturas expostas.
Por isso, pessoas maduras de quase-30 já deveriam saber que devem mandar pro inferno o tal "momento alfa", tão almejado pelas tolices juvenis. Plástico não tem gosto: porque definir a vida em referência a algo insosso e sem vida?
Nos quase-30 declaro: sejam bem-vindas as ruguinhas e os cabelos brancos, contanto que representem o gasto de energia com o que vale à pena - lutar ao lado de quem temos cumplicidade pra viver com sentido num mundo tão desumano - e não com a frustração que advem da obsessão a ilusões de plástico e vazias, tal como "o momento alfa". Ao inferno com as ilusões de plático.

"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço"
Ítalo Calvino

quinta-feira, 7 de abril de 2011

"Tempo de paz não faz nem desfaz..."

Minha irmãzinha casou. "Irmãzinha" é cacoete de irmã mais velha que tem dificuldade de ver uma mulher naquela figura sapeca que já foi uma criança tão desprotegida. Mas, enfim, parte de se tornar adulta é também reconhecer que as antigas crianças agora são adultas e não se sentir também juvenil perto delas. Eu e minha irmã sempre temos essa dificuldade. Não convivemos por mais de um ano ininterrupto desde que eu tenho 19, então a gente congelou no tempo. Quando nos encontramos, esperamos que a outra haja igual há 10 anos atrás e isso gera desentendimentos homéricos. Mas, ok, vamos aprendendo. Tem um lado bom: quando nos chocamos de nos perceber "adultas", nada é mais reconfortante que ligar pra outra e dizer "como assim eu casei? me explica como cheguei aqui?" Nessas horas ninguém me entende mais do que ela. Porque ela está longe de mim tempo o bastante pra também se surpreender com o que pros amigos do cotidiano é mais gradual. Mas ela esteve perto de mim tempo o bastante pra saber o que é relevante.
Uma amiga confessou depois de muito vinho que comentava com a analista que as pessoas não entendem essa coisa de amar e se entregar e que me usava como exemplo. Aparentemente as pessoas não entendem como eu e marido investimos tanto nisso. Não devia, mas me surpreendi com o comentário. Sei que ela disse isso no melhor dos sentidos, de que nossa entrega é referência, etc e tal. Mas sempre fiz isso de forma tão natural que me surpreende que isso surpreenda alguém. "Vocês não fariam o mesmo?", me pergunto. "Vocês não se entregariam de corpo e alma se reconhecessem o amor em outro alguém?" Que tola sou. De achar que as pessoas querem amar e se entregar. Na verdade, o medo é foda pra caralho. Tão foda que paralisa mais do que qualquer doença. Literalmente...
Se entregar, apesar do medo, é como saltar no escuro. Dá frio na barriga, vai de encontro aos reflexos de auto-preservação, mas o prazer é surreal. Por isso celebro a coragem da minha irmãzinha, que há dois anos nos perguntava se não era melhor usar rapel. E que agora mergulha loucamente sem hesitar. Compartilhamos mais esse segredo. Amar pode doer, fazer sofrer, até enlouquecer. Mas nada dá mais sentido à vida do que sentir isso. Saravá!

sábado, 12 de março de 2011

Desilusão ou desencantamento?

Sempre fui uma menina idealista, do tipo que acreditava em certas instituições. Cheguei a lugares que nem imaginava possível antes dos 30.
Fiz mestrado num dos melhores institutos do Brasil na minha área e encontrei um departamento cheio de vaidades e trapaças. Pensei que a academia tinha se corrompido pelo ego de figuras nefastas. Fiz estágio na ONU e encontrei o limite do tédio nas conferências mais inúteis que o mundo diplomático consegue teatralizar, do tipo que faz TV Senado virar entretenimento. Pensei que a política internacional estava dominada pela despolitização do que importa. Trabalhei em ONGs feministas onde licença maternidade de funcionárias é tabu que gera comentários maldosos e onde a concentração de poder na mão de "matriarcas" reproduzem práticas constantes em nossa sociedade patriarcal. Tsc, tsc...
Marido diz que desilusão é bom, porque antes um desiludido que um iludido.
Bem, se tem uma parte da minha vida onde sempre abracei a contradição foi minha vida amorosa. Relacionamentos são difíceis, exigem trabalho duro, tem dia que sorrimos sozinha no elevador lembrando da trepada matinal, tem dia que queremos nos fechar numa concha. Mas topo tudo isso de peito aberto se for pra compartilhar meus dias com essa figura rara que encontrei e reconheci.
Mas do alto dos meus quase-30, tinha mantido uma ilusão bem guardadinha e cultivada: o tal do doutorado. Desde que comecei o mestrado que penso no dito cujo. Mesmo sem existir, já virou presença constante de meu discursos sobre o futuro há algum tempo. Com as diversas frustrações com tantas instituições, resolvi tirar esse coelho da cartola e bum! explosão atômica nessa cabecinha perturbada.
Não há um programa de doutorado que cumpra todos os critérios estabelecidos objetivamente na minha lista de prioridades. O castelinho de areia da minha neurose obsessiva se desfaz sob meu olhar impotente e desolado. Passei dias cabisbaixa por desfazer a ilusão antes mesmo de concretizar o ato. Mente poderosa para a destruição.
Fui reconstituindo os caquinhos com colo de marido e conversas com amig@s. Ainda não me recuperei, mas começo a separar desilusão de desencantamento na última (?) fronteira de idealização que me restava. Estudar é uma atividade que me encanta, ainda que seja um processo permeado de contradições. Ao menos, posso fazer isso ao lado de um amor que cuida e de amigos sinceros. Preparar para doutorado para mim no momento significa me preparar para me encantar sem ilusões vãs. Diriam alguns, bem-vinda à vida adulta.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Vício

Talvez nos quase-30 eu tenha que aceitar que por mais cautelosa que eu possa ter sido pra tantas coisas, tomando vacinas, levando guarda-chuvas ou tirando vistos com antecedência, posso acabar cometendo erros(?) juvenis. Como me encontrar completamente viciada no homem com quem divido o teto a ponto de não saber mais separar alguns quereres e desejos. Cada situação em que me coloco... ou seria inevitável cair nessa armadilha apaixonante e envolvente?