sábado, 12 de março de 2011

Desilusão ou desencantamento?

Sempre fui uma menina idealista, do tipo que acreditava em certas instituições. Cheguei a lugares que nem imaginava possível antes dos 30.
Fiz mestrado num dos melhores institutos do Brasil na minha área e encontrei um departamento cheio de vaidades e trapaças. Pensei que a academia tinha se corrompido pelo ego de figuras nefastas. Fiz estágio na ONU e encontrei o limite do tédio nas conferências mais inúteis que o mundo diplomático consegue teatralizar, do tipo que faz TV Senado virar entretenimento. Pensei que a política internacional estava dominada pela despolitização do que importa. Trabalhei em ONGs feministas onde licença maternidade de funcionárias é tabu que gera comentários maldosos e onde a concentração de poder na mão de "matriarcas" reproduzem práticas constantes em nossa sociedade patriarcal. Tsc, tsc...
Marido diz que desilusão é bom, porque antes um desiludido que um iludido.
Bem, se tem uma parte da minha vida onde sempre abracei a contradição foi minha vida amorosa. Relacionamentos são difíceis, exigem trabalho duro, tem dia que sorrimos sozinha no elevador lembrando da trepada matinal, tem dia que queremos nos fechar numa concha. Mas topo tudo isso de peito aberto se for pra compartilhar meus dias com essa figura rara que encontrei e reconheci.
Mas do alto dos meus quase-30, tinha mantido uma ilusão bem guardadinha e cultivada: o tal do doutorado. Desde que comecei o mestrado que penso no dito cujo. Mesmo sem existir, já virou presença constante de meu discursos sobre o futuro há algum tempo. Com as diversas frustrações com tantas instituições, resolvi tirar esse coelho da cartola e bum! explosão atômica nessa cabecinha perturbada.
Não há um programa de doutorado que cumpra todos os critérios estabelecidos objetivamente na minha lista de prioridades. O castelinho de areia da minha neurose obsessiva se desfaz sob meu olhar impotente e desolado. Passei dias cabisbaixa por desfazer a ilusão antes mesmo de concretizar o ato. Mente poderosa para a destruição.
Fui reconstituindo os caquinhos com colo de marido e conversas com amig@s. Ainda não me recuperei, mas começo a separar desilusão de desencantamento na última (?) fronteira de idealização que me restava. Estudar é uma atividade que me encanta, ainda que seja um processo permeado de contradições. Ao menos, posso fazer isso ao lado de um amor que cuida e de amigos sinceros. Preparar para doutorado para mim no momento significa me preparar para me encantar sem ilusões vãs. Diriam alguns, bem-vinda à vida adulta.

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