Como parte do processo doloroso de separar idealizações ilusórias de ideais necessários para seguir lutando nos quase-30, me deparei nos últimos dias com o mais belo de todos os ideais: o amor. E provavelmente, que pese todas as neuroses e vícios que sigo trabalhando na análise, este é o espaço que menos idealizo e mais me emociono com a beleza da realidade nua, crua e em fratura exposta. Como boa escorpiana, sempre gostei do intenso e forte. Sempre me atraiu uma verdade bem dita, as emoções extremas, a coragem de encarar qualquer coisa... ops, acho que acabei de descrever o homem que amo...
Ali, onde muitas, ainda que encantadas, possam ter medo da experiência verdadeira da fratura exposta, me embrenhei através da névoa espessa que cega qualquer visão, rumo ao desconhecido, ferido e intenso, o caldo que alimenta a alma, as palavras que intrigam o ser entediado pela vida comum e tosca...
Nada é mais belo que o desejo incomensurável de compartilhar intensamente com outro alguém, de ser companheiro na insegurança atroz, segurar na mão durante a passagem pelo escuro da alma que dói. Fazer isso pelo outro com cuidado e atenção, assegurando que a solidão de ser indivíduo não é solitária se temos companhia sincera, desejada e confirmada. Respirar fundo, sabendo que o outro está lá também pra nós quando for nossa vez. Ter consciência que cumplicidade assim é difícil de construir e sustentar. E poucos sequer sabem ou saberão do que se trata. Então há que se preservar e cuidar quando deparamos com (e reconhecemos!) o mágico na existência tão árida no mundo de hoje.
Quando me casei somente disse publicamente pros amigos queridos uma verdade íntima. Foi um momento lindo, mas nada próximo da experiência íntima e cotidiana de amar a dois. E pros muitos questionamentos alheios que não foram verbalizados, mas estavam presentes, formulei à época a teoria do "momento alfa".
A palavra "casamento" se traduz de duas formas em inglês: "wedding" é a festa onde dois passam a ser publicamente reconhecidos como casados, "marriage" é tudo que vem depois. Acho curioso que se diferencie em alguns idiomas e outros não. A sociedade - e sobretudo as mulheres e seus contos de fada de infância - fetichiza o "wedding" como um "momento alfa". Meses, e às vezes até anos, são gastos planejando até os mais mínimos detalhes, construindo um momento plastificado e sem espontaneidade, e até brega (tem quem goste, mas enfim). E o pior é que a idealização deste momento começa anos antes de sequer existir a possibilidade real do casamento, fazendo deste o reino propício para as frustrações que virão. A "perfeição" esperada para este momento faz com que mulheres busquem homens socialmente respeitáveis, com foco ampliado em dinheiro, trabalho, aparência, comportamento social e todo tipo de idiotice. Pouco importa se a vida sexual é patética, se o cara é egoísta, despolitizado e não sabe quem é Saramago. Pensar não conta. Pensar criticamente então é indesejável. Quem é desajustado nessa sociedade escrota tem problemas. E por aí vai.
O problema é o "marriage" ou tudo-que-vem-depois da festa de plástico. Às vezes se padece de tédio ou se busca diversão em outras partes, ou ainda há aqueles que descobrem desconcertados que depressão, alguma doença, "desajustes", problemas financeiros podem se abater sobre qualquer um. Inclusive com você ou seu companheiro.
Aí muita gente não sustenta a realidade. Claro que amor e vontade de ficar junto acaba. Mas muitas vezes acaba primeiro a idealização. Se tudo-que-vem-depois não refletir a plasticidade das fotos do "momento alfa" pode ser duro de aturar a realidade nua e crua e as fraturas expostas.
Por isso, pessoas maduras de quase-30 já deveriam saber que devem mandar pro inferno o tal "momento alfa", tão almejado pelas tolices juvenis. Plástico não tem gosto: porque definir a vida em referência a algo insosso e sem vida?
Nos quase-30 declaro: sejam bem-vindas as ruguinhas e os cabelos brancos, contanto que representem o gasto de energia com o que vale à pena - lutar ao lado de quem temos cumplicidade pra viver com sentido num mundo tão desumano - e não com a frustração que advem da obsessão a ilusões de plástico e vazias, tal como "o momento alfa". Ao inferno com as ilusões de plático.
"O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço"
Ítalo Calvino
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