Vivo minha vida em fronteiras, não à toa o “internacional” sempre me intrigou. Uma certa sensação de não pertencimento sempre presente parecia solúvel em outro lugar, no que era desconhecido. Bastaram poucos anos de vida nômade para saber que solução não existia em lugar algum. E pior: a sensação de não pertencimento só aumentou à medida que novas fronteiras foram se traçando. Minha vida dividida em arenas inconciliáveis, com cosmovisões diversas, línguas diversas... e eu “lost in translation” no meio.
Talvez por isso a China me incomodou tanto a princípio. Nunca me senti tão incomunicável e incompreendida. E ao mesmo tempo, esse parecia o retrato de minha própria vida, difícil de encarar esse fato, duro desconforto. Aos poucos fui me sentindo mais à vontade, e de dores intraduzíveis passei à mimetização espontânea, não me sentindo um ET na multidão de olhinhos puxados. A vida nômade é um vício visceral. Cansa, estressa, dói, mas apaixona como poucas coisas.
O que te faz sobreviver na fronteira são as conexões que se cria no caminho. Tive uma dessas ao ouvir uma história. Duas horas depois de conhecer uma jovem de quase-30 assim como eu, apaixonada pelo companheiro como eu, inconformada como eu, a ouvi contar como sua vida mudou quando aos 21 anos ela descobriu que pessoas em quem ela acreditava e a quem dedicava sua militância eram parte de uma rede criminosa. De jovem com ideais ela passou ao cinismo absoluto, perdeu muitos sentidos e 10 anos depois vive uma vida diversa. Senti que ela queria acreditar em algo, mas o sistema tinha acabado com os sonhos. Assim como muit@s jovens de nossa geração de quase-30, sonhar parece-lhe coisa de tol@s. Isso me fez pensar em contra-factuais infinitos. E se isso não tivesse acontecido com ela? E se tantas coisas tivessem acontecido de forma diferente comigo?
Sigo no trabalho árduo de desatar os nós que me prendem, jogar fora as pedras que estão no meu bolso e me dificultam nadar em direção à superfície. Busco com afinco o sopro de ar que vai me desvencilhar deste engasgo. Estou nos quase-30 e não quero ser refém das minha dores.
"O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais; há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade… sei lá de quê!"
Florbela Espanca
Florbela Espanca
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