sábado, 27 de agosto de 2011

Evaporar

Um mês de infinitas saudades que não cabem em um coração despedaçado. Transbordo.
Quantas vezes parti pra percorrer o mundo depois de nossas despedidas tão doídas e chorosas? Tão incomensurável a dor de não ter me despedido antes da sua partida.
E mesmo com despedidas, sempre tínhamos os longos telefonemas madrugais apaixonados e a certeza do reencontro, momento mágico, sempre cercado de flores e música, tal o carinho com que me recebias. Como posso falar contigo agora? Onde encontro seu colo?
Nada nunca deu tanto sentido à minha existência como nosso amor.
Nada nunca me fez sofrer tanto como sua ausência.
Sinto sua falta. Absolutamente.
Nosso ninho vazio sem sua voz cheia, seu escutar atento, suas palavras certeiras, suas brincadeiras e risos, seu dengo, pedindo cafuné e abraços.
Se você existe em algum lugar, gosto de te imaginar sorrindo e se sabendo amado.
Que assim seja.

"Como se morrer fosse desaguar
Derramar no céu, se purificar
Deixar pra trás sais e minerais
Evaporar"


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Tudo que é sólido se desmancha no ar (?)

Como é possível dedicar esforço e cuidado para cultivar flores por tanto tempo e encontrar de um momento para o outro um campo árido e sem vida? Como é possível desejar tanto o corpo de um homem e seguir vivendo mesmo depois de vê-lo inerte num caixão?
Parece ser o fim da esperança na vida, o epíteto da morte trágica e repentina que não deixa recados, desculpas ou despedidas concretas. Só a sensação de porta fechada a cal, sem comunicação possível. Para SEMPRE. Que dor sem fundo é lidar com o nunca mais, com o não irredutível, com a impossibilidade atroz. Me arrasto como um zumbi, autômato do fazer cotidiano. Lavar pratos, dormir e acordar, checar e-mails, buscar apartamento, falar milhões de vezes sobre um ato e tudo que levou a ele e tudo que ele acarretou. Para quê? Se nunca vou entender nada de fato, nunca vou poder voltar atrás e refazer, nunca vou poder saber o último pensamento daquele que tanto amei. Terá sido de libertação e alívio? Terá sido de desespero e vontade de ficar? Terá se sabido amado? Terá seguido me amando?
Por que não se desmancham no ar as coisas feias e duras? O desamor, o sofrimento, as dores do corpo, a exploração de tantos por alguns... Por que ao contrário se desmancha o belo e mágico, o amor construído com tanta entrega?
Eu que sempre tive tantas certezas, sou um poço de dúvidas.
Flutuando em mar aberto, à deriva, minha alma desconectada da vida que segue, tormenta por dentro, buscando desesperadamente momentinhos de fé que me permitam seguir em frente com algum reflexo de sentido. Que falta me fazem as palavras de consolo que ele como ninguém sabia dizer, a parte de seu corpo onde eu repousava minha cabeça em busca de acolhimento e que já tínhamos acordado ser o meu "ninho no ninho", nossa casa.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Tempo III: tempo circular na revolução do amor

Mesmo que saibamos racionalmente que somos uma gota no oceano do universo ou da História, em dado momento, uma pessoa pode ser o centro de nosso universo e o encontro de duas pessoas pode ser o ponto de inflexão de toda História. Danem-se as galáxias, o Big Bang, as grandes civilizações. Tudo o que foi/fui antes e tudo que virá/virei a ser emana do nosso encontro, como ondas que reverberam em todas as direções a partir dali. Momento definidor, inflexão revolucionária do tempo. Meu passado foi reescrito à luz desse encontro. Quem poderei ser depois é resultado disso. O mundo já não tem mais as mesmas cores, formas ou sabores. Tudo mudou diante da explosão no centro do meu universo. O meu Deus das Pequenas Coisas, grandiosa presença agora silenciosa, grita em minha alma.
Dizem que voltarei a sorrir genuinamente. Não me parece possível que todos estejam equivocados. É nisso que me agarro.

A insustentável leveza do ser

Ao que parece algumas pessoas conseguem viver a vida com festiva leveza, de carnaval em carnaval, sem tantas crises. Talvez lhes ajude o álcool, o rivotril, o consumo de toda sorte de inutilidades ou a cegueira existencial.
Encarar a vida de frente e ver a olhos nus suas contradições dilacera a alma de tal forma que pode ser difícil seguir caminhando com tantos cacos por reconstruir. O que vai sair dessa reconstrução pode apenas aparentar semelhanças com o que a alma foi um dia. Inocência devassada, será possível qualquer leveza sem estar dopado?

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A fé é o instinto da ação

Desde que a morte mostrou sua feia face em minha vida, a existência para além da matéria se tornou um pensamento recorrente. Em quinze dias, recebi passes, li mensagem psicografada, fui em culto batista e comunguei em missa de sétimo dia, em busca da certeza que parece ser tão natural para outros: a de que em algum lugar para além de mim mesma aquela pessoa que amei tanto continua existindo, continua querendo, continua pensando. Como invejo os que têm fé.
Durante dois anos a frase "A fé é o instinto da ação" esteve colada na porta da nossa casa. Em nossas alianças, marido gravou "Comum união". Nos últimos meses, rezamos de mãos dadas todas as noites antes de dormir. Ele sempre buscou essa fé de todas as maneiras e o amor era nossa devoção. Fé, palavrinha tão pequena, com sentido tão incomensurável. Como desejaria agora simplesmente crer. Se não tenho seu colo como consolo, que ao menos soubesse que ele existe e que está sem dores, livre, em paz e que não me deteste.
No momento, sinto como se depois de dois anos e meio sendo meu interlocutor prioritário, ele desligasse na minha cara e sumisse sem deixar rastros para todo o sempre. Sem poder dialogar, me resta construir sozinha minha narrativa dessa história que era de dois e aceitar sem maniqueísmo que ele não é mártir, coitado ou traidor, mas um homem imenso na beleza de sua alma, mas também em suas dores e contradições.
Quando alguém morre dessa forma, por escolha (ou falta de escolha?), os que ficam também escolhem em contrapartida. Escolhi viver. E pra isso preciso me reencantar com o mundo e com as pessoas que hoje parecem tão sem graça, sem o brilho que só a memória dele parece ter agora. Se não consigo ter fé no que há além, busco retomar a fé então na vida do aqui e agora, do que já foi e do que pode vir a ser. Tarefa árdua, mas necessária porque a vida prossegue e tenho que reaprender a viver.



sábado, 6 de agosto de 2011

A minha herança: uma flor

Não se sabe ao certo
O que se pode vir a ser
até que de fato seja
O que se é capaz de fazer
até que de fato faça
Quais são os próprios limites
até que se encare a impossibilidade
de salvar quem se ama
ou salvar a si mesmo.

No nosso primeiro Natal juntos, meu companheiro levou meu violão pra consertar. A primeira música que aprendi a tocar falava do acolhimento das dores e a salvação através de um amor incondicional, ilusão que compartilhamos tão visceralmente, que por mais que racionalmente eu repita que fiz o que pude, o coração não se convence e a alma destroçada tenta sobreviver no cotidiano que prossegue massacrante.

O fim das grandes narrativas?

Todo casal tem sua história, de como se conheceram, como se apaixonaram, como decidiram ficar juntos. E quando há sintonia, essa grande narrativa é tão compartilhada que duas pessoas se sentem parte de uma mesma história, em alguns momentos confundindo-se. Antes dos 30, tive o privilégio de viver uma história que muitos passarão uma vida inteira sem sequer tangenciar.
Uma história de amor deixa de ser bonita se seu fim é feio? Quero pensar que não, porque senão meu presente reescreveria meus últimos anos de forma tão profunda que não sei como encarar um futuro com essa bagagem. Sim, quase-30 e o meu grande amor frustrado, sofrimento sem palavras, buraco negro. Nisso meu companheiro tinha razão: é impossível fazer 30 sem amargura. Saturno se aproxima ainda mais, causando abalos sísmicos desestruturantes. Qual o meu lugar nesse mundo? Nômade que tinha fincado raízes, poderei permanecer sem fugir das dores?
Uma das coisas mais tristes do fim de uma história é que dois passam a ser dois de novo e esse rearranjo "matemático" causa estragos metafísicos e filosóficos, narrativas se multiplicam, culpados e culpas emergem, dores parecem não ter mais fim... e nessa torrente, que falta faz o acolhimento da grande narrativa da crença no amor e na possibilidade de vencer a confusão de quereres e histórias de vida. A grande narrativa pode ter sido substituída por versões da história, mas algumas versões se aproximam mais do real do que outras (sim, pois existe o real, outra lição aprendida com ele!) e o que me sustenta é a fé de que passada a tempestade, para além do que mareja os olhos e alma, reencontrarei a verdade e me reconciliarei com eu-aos 27, jovem mulher, amando loucamente e acreditando na eternidade.